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  • “Perdoai, e sereis Perdoados”

    “Perdoai, e sereis Perdoados”

    A expressão forte que nos estimula neste tempo é o Perdão. “Perdoai, e sereis Perdoados” são palavras exortativas de Jesus Cristo, quanto a capacidade de perdoar e sermos generosos uns para com os outros (cf. Lc 6, 37). Elas estão no conjunto elucidativo em que somos chamados a não julgar e nem a condenar, pois se o fizermos também teremos a triste sorte de sermos julgados e condenados. Preferindo como opção fundamental a medida do amor!

    Por sua vez, vale realçar a compreensão do perdão que só pode ser vivido por pessoas que profundamente sabem amar. Esta condição de amor, gerando a reciprocidade, faz com que todos sejam capazes de olhar o próximo com misericórdia – “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6, 36) . Diante das nossas misérias nos deparamos com a benevolência de Deus…

    Tendo em vista as palavras do Papa Francisco, sobre uma necessária ‘cultura do encontro’, nos apercebemos ainda com a declaração do cardeal Walter Kasper, sobre uma urgente ‘cultura da misericórdia’. Mas só poderemos avançar nesta última se nos deixarmos interpelar pela primeira. Ou seja, só pode haver cultura da misericórdia quando superarmos a dimensão do distanciamento, aproximando-nos, não só os corpos, mas os corações sensíveis. E na sensibilidade do Espírito, nos deixarmos moldar pelas relações profundamente humanas.

    Desse modo, a experiência litúrgica, contida no Ato Penitencial, por exemplo, nos leva a compreensão de que toda forma de perdão se fundamenta na relação do sujeito pecador ou ofendido com o seu oposto. Assim, o pecador tende sempre em plenitude viver na relação com os santos e com o mais próximo de si. Com as palavras do rito litúrgico, vimos a necessária invocação dos santos, dirigindo-se aos irmãos, suplicando sua intercessão, tendo como elemento inicial o “Confesso a Deus todo poderoso”. Em seguida, vai-se dilatando esta realidade para com os irmãos: “E a vós irmãos e irmãs”. Esta conquista não se constitui só pela força humana, mas requer o poder de intercessão dos santos e do próprio Deus uno e trino. Assim, a formula de absolvição sacramental (sacramento da confissão) tem como principio a Trindade: fala de Deus Pai, do Cristo que redimiu o mundo, do Espírito Santo que foi enviado para remissão dos pecados, bem como da Igreja, que por sua vez, é canal de perdão e paz. Tudo isso para nos referirmos a condição de comunhão…

    Além disso, o sacramento da confissão faz considerar não apenas os pecados cometidos contra Deus, mesmo que partindo do decálogo ou dos mandamentos da Igreja, enfim. Mas leva em consideração os pecados ou ofensas cometidas contra o seu (meu) próximo. Não só reconciliar-se com o irmão que se ofendeu, mas que sejamos audazes na reconciliação com os que nos distanciaram de si mesmos. Por isso que Cristo enfatiza: “Se, portanto, ao levares a tua oferenda ao altar, te lembrares de que teu irmão tem algo contra ti, deixa a tua oferenda lá diante do altar, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão e, então, volta para apresentar a tua oferenda” (Mt 5, 23-24). A partir disso, entende-se que a vida ritual-sacramental está profundamente ligada com as disposições do coração e da vida em comunidade. A comunhão com Deus, nesse sentido, está implicada também na vida comunitária. Enfatiza João: “Se alguém disser: ‘amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é mentiroso” (1Jo 4, 20). A capacidade de amar ao Deus, de amor absoluto, então na sua intimidade, enquanto compromisso moral e espiritual-religioso, se deve amar o outro, que é diferente de nós.

    Assim como o pecado pode estar caracterizado por pensamentos, palavras, atos e até mesmo atitudes de omissões, o ato de perdoar funda-se nos horizontes de dispor-se de si mesmo, num processo de saída, em direção ao ofendido. Este ato provoca ambas as partes a auto-reflexão e tomada de consciência e no assumir uma nova postura, enquanto família humana e cristã, de abertura ao que busca perdão e que se abre a reconciliação num ato de misericórdia e humildade.

    Quantas vezes se deve perdoar? O perdão não tem limites (Mt 18, 21). Basta desejar e colocar-se a perdoar e ser perdoado. Quem não faz a experiência do perdão não possui garantias de um amor autêntico, pois o verdadeiro amor tudo perdoa, atesta são Paulo (1Cor 13, 7). Pois Deus tanto amou, e continua a nos amar, que entregou seu Filho única para a salvação dos homens (cf. Jo 3, 16; 1Jo 4, 9-10). Logo entendemos que o perdão passa pelo crivo do amor que sempre redime. Perdoar é um ato divinamente redentor!

    O perdão sempre tende a nos redirecionar ao dinamismo da ressurreição, pois é redentor. Além disso, faz despertar em nós uma nova vida após superarmos os sinais de morte que marcavam a vida interior, a pureza e a paz da consciência, que é sacrário inviolável do ser humano (são João Paulo II). No perdão se encontra o alívio e a leveza do divino em nós. O Pai Nosso, assim, é primordial oração pois nos esclarece: “perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos ofendeu”. Porém isto só pode ser concretizado por quem tem um coração sensível. “O grande obstáculo a uma vida de Deus não é a fragilidade e a fraqueza, mas a dureza e a rigidez” em que nos deparamos (MENDONÇA, 2013, p.119).

    Diante de tudo isso, fica forte o realismo de que precisamos suplicar a Deus um coração puro e um espírito sempre resoluto (cf. Sl 50, 12). Deixando mais claro, precisamos elevar aos céus: ‘Dai-me Senhor uma consciência pura e uma inteligência decidida’. Tendo em conta a firme esperança de que Deus não deseja a morte do pecador, mas que mude de conduta e viva para sempre (Ez 33, 11).

    Pintura: “O retorno do filho pródigo” de Bartolomé Esteban Murillo (1667).

    (V.rP.)

  • TENHO FOME!

    TENHO FOME!

    A Campanha da Fraternidade (CF) deste ano de 2023 busca retratar e conscientizar a sociedade civil e religiosa para um dos grandes desafios do nosso tempo: a fome. Esta realidade não é abstrata ou aferida para simples debate ideológico, político ou de partidarismo. Coloca-se em questão a própria dignidade da vida humana.

    A diferença, próprio da natureza humana e de suas relações, acabou-se por se tornar fator ou sinônimo de desigualdade. Todos são iguais? Não. Porém, enquanto seres humanos, todos possuem a mesma dignidade e, por direito natural, deveriam possuir o essencial para sobreviver como pessoa. O que é de todos tornou-se propriedade de poucos. Ao mesmo tempo, nos firmar somente nesta premissa, e nos atendo a questioná-la por mera formalidade intelectual não resolverá o problema social em questão, que é a fome.

    Por que a fome impera na sociedade globalizada? Sabendo de suas causas aplicaremos satisfatórias soluções. Desde já enfatizamos que temos fome de vida, existência, respeito, moradia, realização dos próprios sonhos, ser visto-sentido e percebido. Tem-se fome de tecnologia, de justiça, liberdade, educação, lazer. Famintos estamos por uma vida que não seja desqualificada e compreendida como objeto de manipulação em massa por ‘sistemas imperialistas’.

    A fome tornou-se doença, pois destroe as camadas existenciais do tecido social! Os números apontam, por meio de pesquisas (CF, p. 51-60), os famintos de arroz, feijão e outros produtos em suas vidas. Ao mesmo tempo precisamos ser provocados e nos deixarmos sensibilizar pelas múltiplas fomes cadentes em nossa cotidianidade.

    A satisfação, o bem-estar pessoal em nossas casas, relações familiares, trabalho e dentre outros contextos, em muito, não nos deixam sair do baluarte fantasioso de pensar que tudo está como num “jardim em Édem”. Ou seja, com tudo isso, pode-se pensar que já se vive num paraíso na terra. Casa comum esta, a terra, que não reflete sua verídica condição, que é a miséria camuflada pela ideia de que tudo está resolvido.

    Numa linguagem grotesca, é possível encontrarmos cadáveres ambulantes em nossas praças, avenidas, ruelas e periferias. Serão apenas fantasmas, vultos que não nos tocam as entranhas do ser Totalmente Humano . Assim, evidencia-se que o problema do outro não é nosso. Que o mal do próximo não nos compete tomar parte. – Talvez o importar-se se dê a partir do momento em que um ‘sujeito’ rouba nossos bens (materiais) de nossa casa. Mesmo assim não se dará conta, na profundidade dos fatos, de perscrutar a origem das motivações para se chegar a esta condição de vida, ou as causas que levam uma pessoa ou família a mendigar. É certo, “A desigualdade não afeta apenas os indivíduos”, mas todos, até mesmo uma nação. O coletivo, tendo em vista as individualidades (sujeitos), vai se enfraquecendo com o tempo como num efeito cascata – um desafio que acaba por gerar outros (cf. LS, nº 51).

    O Pai Nosso que rezamos em comunidade dominical não nos interpela a ponto de querermos pão para todos, sem exclusões. O Pão ainda não é nosso. De forma alguma! No fundo de muitos corações ressoa a arrogância: ‘o pão é meu!’ – Até quando isto será? – Como nos diz a canção, que este “cálice” nos seja afastado, e que nos prontifiquemos a estarmos mais alertas para com a corrupção dos direitos e deveres dos cidadãos constituídos numa democracia.

    Oferecer com uma mão e retirar com a outra é sinal que não se estará vivendo a radicalidade do Evangelho. Uma Eucaristia desejada por muitos e praticada por poucos representa a fragilidade da fé e a superficialidade com que nos dispomos a compreender e praticar o cristianismo. Vale ressaltar que a Eucaristia é uma “forma da existência cristã” (SC, nº 70). Existe por causa D’ela e por meio da mesma se torna uma Igreja “eucaristizada”. Nela estão contidos todos os valores morais, antropológicos e espirituais que se devem prevalecer… A celebração e vivencia eucarística implica o envolvimento de toda a vida e da vida na sua totalidade. Ela é o motor que deveria nos mover sempre ao bem comum – comum união, que é a comunhão de pessoas.

    O Deus que nos dá de comer, nos possibilita também dar de comer a quem tem fome, sem precisar despedir o pobre de mãos vazias (Mt 14, 16). O pouco que se tem torna-se muito quando partilhado com o coração agraciado pela presença de Deus. Percebendo-se pertencente a uma única e universal família, a de Cristo Jesus.

    Que a oração e o jejum nos ajudem na transformação interior de nós mesmos. E que a Caridade (amor), que é gratuidade, nos leve sempre mais a olhar para o próximo com um olhar de misericórdia. Construamos uma “sociedade à medida do homem, da sua dignidade, da sua vocação” (CV, nº 9).

    Urge redescobrir “um amor que ultrapassa as barreiras da geografia e do espaço” (FT, nº 1), atendo-se ao essencial da vida. Assim, praticando a própria fé no cuidado uns para com os outros. Deus Cuida de nós para que cuidemos uns dos outros, porque somos um só povo em seu amor!

    Pintura: “Velho Mendigo com Menino” do espanhol Pablo Picasso (1881-1973).

  • ESPERANÇA

    ESPERANÇA

    “Tremi ao pensar no que o futuro me reservava” (Imaculée Ilibagiza)

    Somos formados por buscas intensas e incessantes. Continuamente estamos a procura de algo ou de alguém para nos tornar reais de nossos sonhos e projetos! – a vida de solidão as vezes é possível de ser percebida como um contato com nós mesmos. Nada esta tão distante que não possa ser experimentado com maior prazer.

    Seja por meio da tranquilidade, pela paz profunda de espírito, ou pelo incomodo de uma guerra interior e externa, também, somos sujeitos da esperança. Comunicadores da esperança! Não há sentido maior que estas palavras, pois os fatos nos tocam e nos fazem desejar sempre mais. Superar as próprias limitações, possuir o que não se tem, conquistar, numa inveja singular, o que o outro também usufrui. De todos os níveis, convivemos com pessoas de esperança. Uns com mais, outros com menos intensidade. Porém todos estão numa mesma ceara. No vasto campo da existência, a busca permanente de realização e de satisfações faz com que sejamos sujeitos passivos ou ativos, interessados, provocados ou lentos para certos aspetos da vida. No particular ou no comunitário-social, estamos envolvidos pela forte tensão entre o desistir e o continuar, entre o estagnar-se ou evoluir. – A Esperança sempre tem um conteúdo motivador, requer que cada um (re) descubra o seu no mais profundo do seu ser! Aí está escondida a potência de toda as ações.

    A esperança nos leva a esperar em algo ou em alguém, que poderá nos fazer melhores ou piores naquilo que temos o firme proposito de atingir. Comumente se divide em duas vertentes: esperança ativa e a passiva. A primeira é posta como a que está desperta, alerta aos fatos, às pessoas, aos acontecimentos, não perde oportunidades, engaja-se, na medida do possível e de duas condições, nos eventos ou fenômenos da vida para fortificar-se cada vez mais; segue o curso da história construindo junto. Agrega outros a si, bem como se percebe necessitada de ir além na humildade. Por outro lado, há a esperança passiva. Esta apresenta-se como indiferente, preguiçosa, quase sempre dependente de outrem ao invés de dar o primeiro passo; vive constantemente na procrastinação, deixa para o amanhã aquilo que se poderia edificar no hoje. Assim, a desesperança é um sinal forte de quem não consegue olhar para o horizonte e perceber os luminares extraordinários da vida.

    Aquele que está envolvido pela ativa esperança é inquieto, assim como Agostinho, inquieto estava à procura do Criador, repousando seu ser n’Aquele que criou e sustenta todas as coisas, assim também somos nós. Na inquietude do ser está o encontro com o repouso, a serenidade, a paz, o afago das delícias incomuns! Como nos atenta o filósofo iluminista, Immanuel Kant, a razão humana é levada aos mais profundos questionamentos, que podemos aplicar ao viés da esperança: ‘O que posso saber? O que devo fazer? O que posso esperar?‘. – O conhecer possibilita-nos realizar da melhor forma possível o que tanto esperamos, porém é preciso estarmos atentos ao que se espera esperançosamente: uma vida comum, minimalistas, circunscrita somente nos liames dos sistemas humanos, ou deixar-se provocar pelas questões de ordens superiores (metafísicas) e adentrar-se nos mistérios de uma nova experiência…

    Com isso podemos ainda vislumbrar que a esperança é um instrumental vital para o exercício da própria liberdade – “A liberdade permanece sempre liberdade” (BENTO XVI, 2008, p. 36), é fato. É o motor do homem livre! Se se sois livres, então estais fortificados na e pela esperança. Todos a possuem, o que distingue em cada um é a sua vivência. Tem quem a presa para o bem, outros para o mal.; uns para a vida feliz e para fazer o outro também feliz, outros a usa para torna a vida alheia um ‘inferno’ – realçando, assim, que ‘o inferno são os outros‘ (J. Sartre)…

    Se há esperança no futuro, logo o presente terá características de um esperançar! E tudo será feito no momento atual para que o dia seguinte seja plenificação desta espera da consumação do desejado ou esperado – “[…] o futuro é certo como realidade positiva, é que se torna visível também no presente” (Ibid., p. 5). Desse modo, o que almejo num tempo distante, já o posso experimentar, de antessala, no agora. Como exemplo, se se pretende ser doutor, não se espera chegar à faculdade, requer, no momento presente, fazer opções de vida que favoreçam um bom resultado ao final da busca. Quem pretende o troféu da corrida, não pode deixar para exercitar-se no dia somente, mas deve anteceder a conquista com preparações contínuas, já saboreando-a no desenrolar do processo. E será assim que os meios e métodos também serão construídos e melhorados. – Somos movidos pelo “Princípio Esperança” em todas as categorias e condições da existência: arte, religião, pensamento, civilização, vida eterna, humanismo e dentre outras esferas.

    Sem a esperança, o mundo, a sociedade, a família e os grupos sociais estariam vivendo uma profunda depressão! Nem mesmo conseguiríamos evoluir humana e tecnologicamente. A esperança de transformação do mundo e da cultura (da realidade histórica) nos diferencia de todos os outros animais. Estes vivem pela própria natureza, já o ser humano, movido pela esperança racional e fideísta (fé), ultrapassa o meramente humano, na conquista da transcendência. Paradoxalmente seres superiores, mesmo na condição de seres humanos. Desse modo, “a esperança é a ‘âncora da alma’” (cf. CIgC, par.1820. Hb 5, 5), ou seja, a firmeza da Alma é a Esperança forte!

    Imagem: “Esperança II” de Gustav Klimt (1908).

  • “POLÍTICA E PAZ”

    “POLÍTICA E PAZ”

    Tendo em vista o cenário contemporâneo, é preciso assumirmos uma consciência crítica das nossas posturas, de tal modo que possam favorecem o bem pessoal e social. Por isso o arcebispo emérito de Diamantina, Dom João Bosco Óliver de Faria, nos ajuda, nesse sentido, a melhor compreendemos a nossa participação no meio político, tendo sempre em vista o bem comum, respeitando as diferenças, para que assim se construa a unidade. Leia, a seguir, a reflexão na integra:

    Há evidências de que a paixão política é mais abrasadora e mais violenta que a paixão sexual. Sei de dois casais, moradores em cidades diferentes, que se separam durante a campanha política municipal.

    Sem dúvida alguma, é importante ter consciência do “bem da Nação” e fazer uma opção política para se atingir esse “bem”. É igualmente importante, contudo, não transformar a própria opção política em paixão. Caso isso ocorra, as consequências tendem a ser danosas, como costumam ser aquelas relacionadas a qualquer outro tipo de paixão, igualmente passageira.

    Ensina-nos o Catecismo Católico (N. 1765): “A paixão mais fundamental é o amor provocado pela atração do bem. O amor causa o desejo do bem ausente e a esperança de consegui-lo. […] A percepção do mal provoca ódio, aversão e medo do mal que está por chegar”.

    Nosso contexto exige temperança, sabedoria. Todo sábio é humilde porque conhece os limites do próprio saber e, na humildade, respeita o saber alheio. Ninguém tem bola de cristal sobre o futuro da própria vida e sobre o bem da Nação! Assim, é importante ter um posicionamento político calcado em julgamento crítico dos candidatos e de suas respectivas propostas, mas é indispensável respeitar a opção daqueles que pensam diferente.

    Deve-se, sem dúvida, fundamentar, na verdade, a própria opção política, livre de toda e de qualquer possível forma de manipulação. O “dai a César o que é de César” (Lc 20, 25) nos ensina a ser cidadãos responsáveis pelo bem da Nação sem, no entanto, tomar como verdade absoluta a própria opção política. Essa, por sua própria natureza, exige o respeito à opinião alheia. Não nos esqueçamos de que o contrário disso fere a democracia e a liberdade de escolha, primeira opção da alma.

    Não nos esqueçamos de que as opções políticas passam: candidatos, antes adversários que se insultavam publicamente, unem-se, posteriormente, por interesses novos. A opção política não pode, pois, ferir nossas amizades, que são uma conquista preciosa na história de nossas vidas.

    O processo eleitoral passa, mas as amizades verdadeiras são duradouras, permanecem, fazem parte de nosso patrimônio espiritual. Uma boa amizade é infinitamente mais valiosa que o peso de uma opção política transitória.

    Sejamos bons cidadãos e fiéis em nossas amizades. Quem tem um amigo tem um tesouro! Sejamos responsáveis em nossa opção, mas saibamos também respeitar a opção do semelhante, ainda que diversa da nossa. Cultuemos a paz!

    Imagem: “Operários” de Tarsila do Amaral (1933).

  • PENSAMENTO

    PENSAMENTO

    “O que o faz homem, porém, é justamente não se bastar com o que dele a natureza fez, mas ser capaz de [se] refazer com a razão […]” (SCHILLER).

    Não é novidade a premissa de que o Humano é um ser racional. Ele é superior as demais realidades do tempo pelo simples fato de ser denominado ou caracterizado para além de suas sensibilidades biológico-sensitivas. Desse modo, diferindo-se dos demais seres criados porque é capaz de transformar a si mesmo e toda a sua condição, todos os meios em que vive é possível de mutações. A racionalidade como ferramenta audaz de manipulação de todas as coisas.

    Em contraposição aos animais, tidos como irracionais, que agem pelos instintos ou pelo mero impulso de sua natureza animalesca, o ser humano tem domínio de si e possui poder de controlar as circunstâncias… É pontual, assim podendo, compreendê-lo como uma “espécie que sabe” (Mosé). Ou seja, conhece a si mesmo, desvenda os mistérios da natureza e faz todas as coisas possíveis se convergirem a seu favor. Tudo isso nos leva a crer que tem no fundo de si mesmo pretensões de poder por meio da racionalidade. O poder da razão explode-se e se desencadeia em um universo de consequências: para o bem e para o mal; para a construção de um mundo melhor ou para uma nefasta guerra que aniquila seus semelhantes.

    Ao mesmo tempo, mesmo o sujeito possuidor de uma razão alienadora e destruidora das relações e do universo, há no fundo de todos as conquistas e pretensões, a possessão da verdade. A saída da caverna das ilusões e a absorvência do sol da pura verdade o torna cego em vista dos fatos reais que podem acarretar uma postura impensada. Nesse sentido, coloca-se, ao mesmo tempo, em questão os princípios universais da identidade e da unidade. Percepção de si e do outro, bem como a correspondência ética e moral dos eventos socio-humanitários.

    Aquela razão que outrora poderia subjugar tudo e todos, agora encontra-se num paradoxo: ser dona de si ou dispor-se de si mesma em prol da redenção humana. A humanização da razão parece partir dos princípios norteadores contrários a instrumentalização desta mesma razão advinda da globalização do sujeito social democrático. É oportuno percebermos que o pensamento, produto da razão instrumentalizada, forja uma condição de vida, de existir, que nem sempre concede ao sujeito pensante um patamar diferente ou superior aos outros animais…

    Por isso que o gozo de ser sujeito pensante é a dor mais voraz dos humanos em suas fragilidades. A conquista da elaboração do pensamento de poder criar e recriar, inventar e reinventar a própria existência, mesmo que seja uma conquista, pode tornar-se um fardo pesado de ser carregado! O ‘princípio liberdade‘, por sua vez, parte desta compreensão. Ou seja, se é livre quando se pensa, quando obtém o usa da própria razão; quando a pessoa decide-se por si, toma as rédeas da própria vida – é como àquele que assumindo a si mesmo resolve construir sua história na autonomia mais autêntica. É a perda das ilusões da vida a partir dos horizontes da ascensão humanística. Tendo em conta que sua autonomia, apesar dos sistemas de controle, é sua capacidade de criticar-se, o mesmo sistema que ele precisa para sobreviver e o mundo externo a si mesmo (Kant)…

    Não basta tão somente saber pensar, é preciso atingir o patamar de um pensamento revolucionário, que na individualidade ou no conjunto, sua potencialidade seja impactante. É certo que há um prazer profundo quando se consegue pensar para além das quiméricas situações normativas do cotidiano – é colocar a cabeça para além fronteiras.

    Como ser sujeito de pensamento? O primeiro impulso é deixar-se incomodar pela realidade em que se encontra: a vida, o amor, a liberdade, o trabalho, os estudos, as pessoas, as experiências boas e ruins, os projetos de vida, o cansaço da vida, enfim. É percorrer o profundo das questões que nos parecem banais. A banalidade da vida pode ser um encantamento promissor para a construção do pensamento (cf. LIBANIO, 2014, p. 37-39). O ser filosofante nasce do útero das indagações sobre o comum. O espantar-se ou comover-se é a condição originaria do pensar! (HEIDEGGER, 2013, p. 29).

    É por meio do pensamento criativo, porque somos sujeitos de criação, é que nos construímos e nos desenvolvemos. Pensar é arte! Somos seres artisticamente pensantes! Doamos e recebemos pensamentos coerentes e inválidos no tocante as nossas adesões pessoais e coletivistas.

    O aspecto preponderante para não tornar-se “animal de rebanho” ou de ser reduzido ao nível da massificação é pensar. Se destacar pelo pensamento evolutivo! Sendo que pensar não é estar contra, mas saber qual é o seu lugar e/ou seu papel naquela situação. Mediante a liquidez dos fatos que se tornam, em grande número falsificação do real, então é formidável se amparar no grivo da razão crítica. Porém, um ponto forte precisa ser elencado: não nos esquivarmos dos conteúdos do pensamento! Sua elaboração e exposição. Ater-se aos meios, os instrumentos de transmissão e aplicação. Pensar está totalmente vinculado ao agir. Se se pensamos, logo temos o poder de ação estratégica. Com isso, o medo não pode ser ferramenta de paralização da produção de pensamento… Ele é importante para nos manter vivos e atentos ao real que somos e nos circunda, porém não pode chegar a ser o dominante. Medo este que poderá ser um outro sujeito, bem como instituições e circunstâncias (Russell).

    Nos parece que, diante de tudo isso, é formidável falarmos do poder da razão que do pensamento em si. Até mesmo nos colocarmos em questionamento sobre a dialética, ou melhor, a relação entre razão e pensamento: o pensar é produto da razão? Pensamento pensa a si mesmo, tornando-se, assim, conteúdo e resultado de um mesmo ato de pensar? Mesmo sendo sujeitos pensantes poderemos permanecer na ingenuidade? Sem o pensar, resultado de nossas elaborações racionais, ainda seremos capazes de saber que sabermos de nossa existência?… Estas e outras questões poderão aparecer ao longo da nossa vida, principalmente com fortes tensões em momentos de crises existenciais. Pois as crises, de diversos níveis, são positivas, se bem aproveitadas, para o crescimento pessoal – provoca novas posturas.

    O pensar não é uniforme, é multifacetado! Por isso que todos têm o direito a um pensamento simples e também complexo (MOSÉ, 2014, p. 52). Se o receptor compreende ou não, é outro desafio… Importa salientar ainda que diante de um pensamento enviesado, não nos cabe interpretar somente, mas construir um outro pensamento que, provocados pelo primeiro, nos leve ao progresso. Pensar não é reproduzir o que o desconhecido elaborou em sua noite escura ou de luminosidade, mas é significar a própria condição que os produtos da história nos proporciona…

    Quem não pensa e não produz pensamento é fechado em si mesmo!

    Imagem: “O Pensador” de François Auguste-René Rodin (1902/1904).

  • SEXO OU SEXUALIDADE?

    SEXO OU SEXUALIDADE?

    “O corpo é uma grande razão, uma multiplicidade com um sentido, uma guerra e uma paz, um rebanho e um pastor” (Nietzsche).

    O que poderíamos dizer sobre o ser corpo e sua expressão que podemos chamar de sexualidade? – Somos corpo. Somos desejo. Somos afetos. Somos emoções, enfim. Somos o que somos e o que entendemos ser: um universo complexo!

    É perante tudo isso que na comunicação ou no diálogo com o mundo manifestamos quem somos. Filosófica e existencialmente questões fundamentais são postas: Quem sou eu? Para quem sou? O que ser? Qual meu fim último? – Enfaticamente, é certo: somos corpo, afetos, emoções, sentimentos. Somos linguagem, comunicação. Somos seres que busca o prazer e a diminuição da dor!

    Muitas vezes enfrentamos o mundo que nos cerca para sermos felizes por vias inaceitáveis, como por exemplo: drogas, bebidas, sexo sem limites – um gozar momentâneo da vida. Vivemos submersos numa onda ilimitada do prazer fugaz. A geração recente, que não quer dizer somente jovens e adolescentes do século XXI, é marcada pela prática do “carpe diem”, ou seja, do curta a vida ou desfrute do presente momento sem perspectivas de futuro que se faz preservar. Todavia, tudo isto se torna vaidade das vaidades, como enfatiza o Eclesiastes (1, 2). Há uma força hedonista dominante entre as jovens gerações, que requer atenção e zelo por parte das pessoas esclarecidas.

    Nos deparamos, ainda, com a infeliz Ética utilitarista, ou seja, colocar-se como objeto de prazer para o outro e fazer do outro mero instrumento das satisfações pessoais (egoísmo), desqualificando-a de todos os seus valores sobre-humanos. Por isso que os valores universais do humanismo tornam-se desacreditados…

    A partir desse foco ou feixe de luz, começamos a perceber que não podemos confundir Sexualidade com Genitalidade: a) Sexualidade: é a manifestação do seu ser no mundo, é o ser pessoa, é seu modo de ser e existir para e entre as outras pessoas (o meu ser homem e o seu ser mulher) – Sexualidade está no nível do Psíquico/no espiritual/no moral, além do biológico… b) Genitalidade: é a sexualidade expressa, também, na genitalidade masculina e feminina (cf. CONSELHO PONTIFICIO PARA A FAMÍLIA, 2017, p. 15-18). Condição esta que precisa de amadurecimento da consciência. Somente após saber quem se é, se é possível humanamente viver a genitalidade. O tormento do momento são as inúmeras influências ideológicas e sexistas que deturpam o processo saudável de desenvolvimento biológico e psíquico dos jovens e adolescentes (cf. Amoris Laetitia, nº 280-286). E a cegueira-ingenuidade de muitos formadores de consciências…

    Talvez uma das explicações plausíveis sobre as situações adversas da adolescência, por exemplo, estejam relacionadas a insuficiente descoberta do corpo, e até mesmo pela estimulação ‘globalizada’ das mídias, além da sede pessoal de prazer confrontada com a pornografia e do corpolatrismo – que é a pessoa nessa selva hedonista?

    Por outro lado, a linguagem também tem sua importância. É válido termos atenção ao dizermos que “fazer sexo” é o mesmo que “fazer amor”, porque Amor é gratuidade, é dom, é doação, é graça. Bíblica e teologicamente falando, “Deus é amor” (1Jo 4, 8.16), e é por isso que toda forma de amor está em Deus: Ágape, Filia e Eros (cf. BENTO XVI, 2007, p. 19). Porém não posso reduzir a mera satisfação pessoal em amor. Que muitas vezes ultrapassa a lógica das satisfações e dos desejos humanos. Deus é O Amor doador de si mesmo expresso na Cruz redentora de Nosso Senhor Jesus Cristo. E Cristo não é uma ideologia, pensamento ou ideia, mas uma Pessoa. Desse modo, o amor é encontro de pessoas maduras e livres na entrega mútua para a plena felicidade! Uma “união de toda a vida” na gratuidade de si mesmo (cf. CIC, c. 1055)…

    Compreendermos a sexualidade humana como valor, é ao mesmo tempo valorizarmos o outro como Pessoa em si mesma. É a “expressão da existência” para si e para o outro. Sexualidade é uma condição e uma dimensão existencial – é o que favorece nossa percepção indenitária: eu sou ou o nós somos! (Cf. VIDAL, 2002, p. 107-116).

    Toda visão sadia da pessoa humana parte de uma antropologia também saudável sobre o ser humano. Assim, seres integrados: corpo-alma-consciência (E. Sthein). Por isso a importância enfática de uma ‘teologia do corpo’, ou seja, de um estudo mais profundo sobre a corporeidade humana. A dignidade do sujeito histórico também consiste na compreensão do valor primordial do corpo: numa via religiosa e das ciências humanas. Porém sem reducionismos. Podemos nos situar num contexto necessário de redescoberta da consciência moral e da inocência original contida nas manifestações linguísticas de cada um (cf. PAULO II, 2019, p. 83).

    Somos corpo! Somos linguagem! Somos vida! Somos um mundo de significados e expressões… Ciente de tudo isso, é tempo então de saber o que fazer com nosso próprio ser e existir. Gerir-se a si mesmo à luz de novos horizontes – sem a falsificação do próprio Eu!

    Sexo e sexualidade precisam estar integrados, de tal modo que, mesmo sem o manifesto sexual, a sexualidade ainda pode ser vivida na base fundamental de toda consciência comunicativa!

    Pintura: “O nascimento de Vênus” do italiano Sandro Botticelli (1482/1485).

  • DISTÂNCIA

    DISTÂNCIA

    O poema/poesia expressa os mais profundos sentimentos da pessoa humana. Toda forma de expressão tem sua razão de ser na magnitude das palavras de cujo valor cada leitor é convidado a examinar e fazer sua interpretação. Sentir-se tocado por estas mesmas palavras ou não depende de seu estado de espírito, talvez com o mesmo com que o autor redigiu o belo poema que se segue: Distância.

    “Abandonou-me numa noite escura, sem segurança e sem proteção.

    Senti-me distante dos vossos braços fortes que me acalentam e me asseguram dos desencantos da negritude da condição do ser só…

    Meu prazer é ter-vos próximo como minha própria alma, da qual não existirei e nem viverei.

    Sua existência, seu cheiro, seu olhar, seu toque, seu corpo, seu respirar me faz sentir quem sou. Sou para si, sou pra ti…

    A distância entre nós me faz enlouquecer e perder a última razão,

    Pois sem estar conduzido pelas vossas mãos, posso perder-me nas estradas tortuosas da vida…

    Seja meu companheiro de viagem, para que meu fim seja feliz!

    Onde está, por que procuro e não encontro? O que fazes de melhor, para esquecer-me e não perceber-me?

    Toda minha existência tem seu sentido quando é sentida por ti e contigo!

    Gozar a vida no gozo da sua presença. Um deleite sem fim és tú….

    Responda-me, retorna-me como fonte aos mares dos muitos prazeres,

    Afaga-me e afoga-me nos seu ser para que eu seja: sou em ti, tu és em mim.

    Quanto mais a distância aumenta, mais me desfaleço de saudades…

    A cada instante de seu silêncio passo a inexistir, perco o brilho, foge-me o gosto de ser o que sou para ser contigo um único amor!

    O amor amou-me e abandonou-me,

    Agora distante de ti e ao mesmo tempo distante de mim,

    Perdido no tempo, pois o encontrar-vos é renascer-me dentro de ti!

    Que sou para ti como tu és para mim: uma distância sem fim!”

    Pintura: “A mulher lendo uma Carta” de Jan Vermeer (1663/65).

  • SOLIDARIEDADE

    SOLIDARIEDADE

    “Consciência é, na realidade, […] uma rede de ligação entre pessoas” (NIETZSCHE)

    Não podemos, enquanto seres relacionais, vivermos um determinismo de que somos lobos de nos próprios – “o homem é lobo do homem”, como enfatizou Thomas Hobbes no século XVI. É preciso superar esta ideia minimalista do ser humano, percebendo que na solidariedade, como valor universal, nos percebemos necessitados uns dos outros. Não há construção da sociedade arraigada num certo tipo de individualismo. Há um sonho comum, por isso mesmo, requer ser solidarizado, compartilhado como, ao mesmo tempo, um “caminho comum”.

    A solidariedade está relacionada as instituições, incluindo as educativas. Desse modo, necessita da ação de toda pessoa humana, do sujeito social, para que se torne efetiva e se consiga obter bons resultados. Como ou em que ser solidário? Na prática do bem, na busca pela justiça, na disseminação daquilo que é bom, belo e verdadeiro. A partir de uma vida solidária é que nos colocamos contra as falsas verdades (fake News), contra a opressão, as injustiças políticas e sociais; contra uma cultura do descarte e do provisório, dentre outras pautas que poderão ser reivindicadas ou levantadas por todos que se dispõem a esta missão de sujeitos da própria história…

    É por meio do princípio da solidariedade que tomaremos consciência de que os valores relativos: a verdade, a justiça, a liberdade e as virtudes inerentes de cada pessoa, terão relevância para a constituição da própria identidade e da identidade daqueles que nos rodeiam (P. C. “J.P.”, 2019, p. 119- 125).

    É por meio dela, a solidariedade, que geramos uma autêntica amizade e fraternidade social, colegial. Sendo assim, atingiremos o ideal de vida que corresponda a integração de todos, dos novos aos mais idosos do nosso tempo. Desse modo, estaremos inseridos na dinâmica forte de um “Humanismo Solidário”, como o próprio nome exprime, o ser humano no centro de todas as questões da vida. Solidários a quem está feliz e também a quem está triste; na opulência e na miséria; e com aqueles que estão passando por sofrimentos existências, espirituais e psíquicos.

    Poeticamente, somos impulsionados a construirmos no jardim da existência uma ‘ética do cuidado’ – cuidar de si e do próximo! De modo especial, a solidariedade significa serviço para com os mais frágeis – quem é a pessoa frágil ao nosso redor: meu professor; meu colega de turma; meu aluno; meus pais; os filhos, os amigos ou nós mesmos? Quem é o ser frágil desta história solidária? – Por fim, a solidariedade como valor faz superar toda forma de discriminação: racial, religiosa, ideológica, política ou educacional; de egoísmo, violência, corrupção ou indiferença (cf. FRANCISCO, 2020, p. 62-64) – “Fratelli Tutti”, somos todos irmãos!

    Diante de tudo isso, a consciência sendo constituída a partir da unidade entre o iguais, nos torna plenamente sensíveis ao existir do outro. Só poderemos assumir nossa existência quando o outro fizer parte desta mesma condição. O conjunto perfaz-se a partir das suas partes! Cada um é peça essencial para o grande relógio histórico. É a simples premissa de que na diferença surge a unidade. Sendo assim, a solidariedade entre os membros de uma mesma sociedade a torna forte na situação de paz e de fragilidades cotidianas…

    Tecendo redes é que se constrói a vida!

    Pintura: “Criança Morta” de Portinari (1944).

  • JOGO POLÍTICO

    JOGO POLÍTICO

    Tendo em vista aquilo que norteia nossa visão de mundo, o jogo tem por base divisões simples que asseguram o desenvolvimento orgânico de uma partida ou empreitada competitiva. Existem, como se pode perceber, quatro níveis distintos de sujeitos: torcedores, oponentes – são os times que concorrem ao prêmio, o juiz e os treinadores. Além destes, existe uma classe meramente capitalista que visa tão somente vender seus produtos sem interesse objetivo na competição explicita do contexto em que se encontra.

    As forças e pretensões são diversas para quem se coloca dentro do campo de competições. Desde os torcedores até os treinadores, todos anseiam pela conquista do primeiro lugar, ou seja, pela posse do poder que lhe concede um status social superior a todos os demais. Desse modo, todas as formas de forças físicas e psíquicas serão aplicadas, bem como as estratégias de jogo. O importante não parece ser uma jogada limpa, racional e prática, mas a influência forte no tocante aos desejos da massa, a ridicularização do oponente em sua moral e caráter, a enfatização das poucas obras realizadas – fator de dever como servidor. E diante da pobreza estratégica, cresce a preferência pela ideologização de estruturas e sistemas externos ao jogo político, envolvendo pessoas, personalidades públicas e privadas na tentativa de arrebanhar o maior número possível de adeptos…

    Os argumentos, em sumidade, parecem mais um ‘jogo retórico de palavras’ que em pouco ou nada coincidem com o verdadeiro valor e sentido de uma comunidade política. A política, no seu sentido originário, fundamenta-se e torna-se real no bem comum de uma comunidade (polis). Todas as vezes que os interesses particulares se sobrepõem ao ideal maior de bem comum, a política deixa de ser o equalizador social. Tornando-se ferramenta de guerra entre oponentes que se pretendem, tão somente, manter-se no poder e servir-se dela para a manutenção de seus bens pessoais. É desafiador, porém necessário, avaliar com um olhar clínico todas as posturas, jogadas e estratégias de comunicação entre os candidatos ao governo da nação. Nem sempre aquele que chega como afago ao coração é realizador de um ideário verdadeiramente político. Assim, optar pelo possível resultado do antigo técnico é tragédia romântica. Por outro lado, aderir ao jogador do presente poderá acarretar insensatez e mesmice, pois a mitologia nos impede de perceber a realidade tal como ela é e para além das aparências…

    Diante de tudo isso, é necessário avaliarmos criticamente o desenvolvimento e as contribuições perfeitamente humanas dos times que se colocam em campo. O torcedor, muitas vezes tido como objeto de manipulação, precisa acordar do sonambulismo radical, e ‘olhar para cima’, de onde nos vem o sinal das possíveis catástrofes que muitos não possibilitaram perceber…

    Com isso, requer superar e viver para além do “crepúsculo dos ídolos”. Do nascer do sol até o seu ocaso, poderá ocorrer queimaduras e feridas em todo tecido social. O pior ainda é que não haverá juiz e nem médico algum para controlar a condição do corpo em destruição. É a partir das escolhas dos ídolos que se definirá qual religião seguir. Nem sempre o ídolo é “deus” que realiza milagres sem exigir algo em troca….

    Tendo em vista as jogadas políticas, é factível de que “sem muitos princípios norteadores, [coloca-se] constantemente os termos do Contrato sob suspeita” (MOTA, 2018, p. 93). Assim, todo conjunto que se divide corre o risco de se autodestruir. Mais uma vez torna-se visível as “guerras de narrativas” sem, muitas vezes, fundamentos verdadeiros e lógicos.

    Se alguém se pré-dispõem a representar um conjunto de sujeitos sociais-políticos, precisa ser consciente de que sua autoridade constitui-se não por si mesmo ou por suas forças intelectuais de manipulação, mas pelo consenso de uma comunidade individualizada, que não é massificada, que o faz porta voz de toda a consciência coletiva. O percurso e fim de tudo depende unicamente do sujeito político, dos cidadãos, de cuja autoridade política tem suas bases…

    Um sistema de ‘jogo político’ que visa tão somente a comodidade não pode ser digno de denominar-se Política! Esta, seja razão de unidade e não de divisões.

    Pintura: “Cícero denuncia Catilina” de Cesare Maccari (1888) – (afresco que representa o senado romano reunido na Cúria Hostília – Palazzo Madoma, Roma).

  • FALANTES

    FALANTES

    “E o risco que assumimos aqui é o do ato de falar com todas as implicações” (Gonzales).

    O que nos implica a manifestação da nossa falação? O que podemos fazer para externar nossa pulsão de vida e comunicação? Onde e como aplicar o direito e o dever de manifestação das próprias opiniões?

    Muitos falam, porém quem está certo? A Razão está com quem? Quem pode falar? – Falar e ser ouvido é a condição de todo vivente… Fala o homem e a mulher, o de gênero e o transgênero… Fala todo aquele que se pensa dono da verdade ou comandante da voz alheia, até mesmo representante dos que calaram-se ou foram silenciados pelos dominadores da comunicação.

    O que falar se não da própria história, das dores, dos sofrimentos, das alegrias, das glórias e angustias. O conteúdo é si mesmo com toda sua carga e potencialidade de mudanças, com todos os seus impactos positivos ou negativos no meio…

    Quem fala? O de voz, o sem voz; aquele que sabe ouvir e também esperar o momento certo para persuadir o interlocutor. Por nobreza, somos corpos falantes. Mesmo sem palavras preenchemos o mundo, os espaços com nossas expressões linguísticas. Pela palavra em tons diversos, pelos gritos de socorro e lamentações, por meio das músicas e até mesmo pelas danças. Expressa-se o que se pensa e o que se é…

    Pensamos que em tudo podemos opinar e representar sem mesmo saber da profundidade dos assuntos. Qual o tema da sua fala? O futebol, a religião, a política, o sistema de segurança do país, o governo desgovernado, as guerras e corrupções, sobre os mitos e as fábulas, sobre a vida do outro, enfim… Somos em tudo comunicadores e magistrados dos assuntos que nos tocam a alma. Sedentos de verdade e de conversações

    Cientes de que tudo podemos, buscamos continuamente independência, sem autoritarismos. Liberdade pelo jornal ou pelas redes, tecemos um mundo de informações. O dilema torna-se, assim, real: livres e ao mesmo tempo prisioneiros dos nossos próprios ideais. Em todo caso, autonomia é nossa vez, nossa voz…

    Talvez não seja a questão o “lugar de fala”, mas o espaço por onde poderá ecoar a opinião fundamentada na razão prática da existência e da condição da vida, do absolutamente diferente. Se é totalmente outro quando começamos, ao final de tudo, já não sabemos quem somos, pois falar nos transforma de dentro para fora. Dos profundos abismos do nosso ser ao caos social.

    Fala é a voz da resistência contra toda forma de opressão! Falem os tambores, as marchas, os famintos, os opulentos; falem os machistas e feministas, tradicionalistas e liberais, intelectuais e ignorantes; falem todas as raças, línguas e nações. Se mostrem na nudez que são: uma pátria amada e idolatrada, constituída de um povo heroico com suas lutas diárias…

    Fala a mais profunda Esperança!

    Pintura: “O Grito” de Edvard Munch (1893).