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O PARADOXO MORTE E VIDA

Enterramos os mortos com uma sensação de que um dia estaremos na mesma condição. Morrer é um sinal de impotência diante da vida. Não somos senhores de nós mesmos. A dolorosa despedida nos coloca numa posição de sujeitos frágeis. Para uns ela é alívio, para outros se torna dor, sofrimento e angústia. Não fomos educados para a morte, por isso mesmo incompletos no viver.
Se hoje sepultamos o corpo humano, somos incitados a dar origens as memórias. Memoráveis são os tempos e oportunidades da convivência salutar… Mortos no corpo, vivos na memória de tantos peregrinos. Andarilhos na história alheia e ao mesmo tempo tocados pelo existir do outro.
Se hoje despedimo-nos, como será nossa despedida? Se agora consolamos, como seremos consolados em nossa partida? Se tornamos a morte menos dolorosa para outrem, como a sentiremos a partir de nós mesmos? – morte minha, minha morte…
O realismo mortificante nem sempre expressa nossa convicção diante dos fatos da existência. Aquele que suaviza a morte um dia será também revestido das mesmas vestes… O fim é imprevisível, por isso inevitável!!!
Pintura: “Deposição de Cristo” de Caravaggio (1603/1604)
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CRÍTICOS DO SABER

A Educação como princípio e meio para toda formação humana, espiritual e moral da pessoa. Esta é uma verdade que precisa perpassar em todos os horizontes da esperança educacional.
Somos uma família humana-escolar, de aprendizes. Somos seres em construção. Lapidamos a nós mesmos e nos deixamos moldar por outros. A nossa autossuficiência não nos tornará perfeitos, mas deficientes. Defeituosos de afetos, de carinho, de amizade, de abertura, de vontade, de liberdade, de vocação, e mais ainda de sentido de vida. Não se nasce com tudo isso, porém se aprende no percurso da história. Não há história de vida pronta, mas ela se constrói aos poucos, a cada passo, a cada encontro, a cada despedida, em cada abraço e sorriso, em todos os momentos em que estendemos as mãos uns para os outros – solidariedade.
Que por meio da educação, que não é e não pode ser imposição de ideias, se consiga plantar a semente de um espírito crítico em cada um de nós: críticos do meio e de nós mesmos – um certo “otimismo crítico” faz bem! (Cf. FREIRE, 2021 p. 74). Que tenhamos, com isso, um espírito livre (I. Kant), ou seja, de sujeitos pensantes, estimulados pela condição de vida própria, e de autonomia – “[…] todos devemos aprender a pensar por nós mesmos nos assuntos que nos são particularmente conhecidos, e todos precisamos ter a coragem de proclamar opiniões impopulares quando as julgamos importantes” (RUSSEL, 2014, p. 64).
Com isso, toda forma de “utolucidez” é possível quanto mais se desenvolver “o senso crítico”. Porém, o empecilho para esta experiência situa-se no ponto em que “a consciência e o [próprio] senso crítico não se desenvolvem quando se vive num ambiente em que falte uma visão” aberta de mundo. Se se a educação é fechada, logo a formação da consciência também será restritiva (LIBANIO, 2014, p. 92-93). Por consequência continuaremos privados da realidade verdadeira situada fora da caverna (Platão), onde vivemos por meio de ilusões e aparências.
A educação pelos valores pode causar dores, como que de parto, mas é necessária para atingirmos a verdade absoluta que sustenta e significa toda nossa história – a educação em si já é um valor universal. Educar é o mesmo processo de saída de um mundo aparente para a condição verdadeira de existir: sabendo quem se é e onde se encontra e qual seu papel no mundo – “A educação é a chave para o novo mundo” (RUSSEL, 2014, p. 66).
É relevante dizer que: a beleza da alma está no exercício do intelecto!!!
Pintura: Paulo Freire está entre os pensadores mais citados do mundo. Autoria: Luiz Carlos Cappellano.
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SEDENTOS

Sede de ser,
sede de existir,
Sede de prazer, de felicidade, do gozo esplêndido;
Sedentos de beleza, pela felicidade sem fim!
Sede de eternidade, de permanência incólume.
Sedentos de perceber e de percepção.
Sede do instante contínuo…
Alimentos com prazer e dor, força e fraqueza, austeridade e demência…
Sedentos do igual e do oposto…
Sede de si mesmo, sedento do Outro, potência de existir!
O flagrante dos miseráveis. Uma luz que clareia nossas dores, buscas, encontros e perdidas no tempo passageiro…
O que nos impulsiona é a profunda sede diante do insaciável… o absoluto frágil: Eu!