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DIÁRIO DE UM VIAJANTE

O cartão postal de uma família é sempre o Acolhimento. Diz o próprio Jesus: ‘quem vos recebe, a mim recebe’. Acolher e sentir-se bem acolhido é fundamental para boas experiências.
Agraciados fomos em conhecermos, de modo especial, padre Waldeir e o Padre Nedison por intercâmbio do amigo Marco…
Experiências que se entrelaçam e enriquecem. Isso só é possível quando há abertura para o novo, o possível desconhecido…Fato, o estranhamento logo se transforma em proximidade, Acolhimento recíproco num espaço físico e também pelos afetos externados pelas palavras e pela linguagem do ser…
O Senhor Bom Jesus é ainda peregrino por meio de muitos que encontramos pelo caminho. E o sentido da Vida está na caminhada em direção (a) algum “Lugar”, que é a eternidade…e que já tem sua aurora na cultura do Encontro com o diferente.
Inspirados a Construirmos o percurso na dinâmica do Desejo insaciável de perscrutar novos horizontes e, ao mesmo tempo, fazer-se conhecido em algum espaço. O olhar do outro nos identifica quem somos e para Quê somos. Significar a existência no movimento pendular da História preenchida de significados humanos e sobrenaturais. São realidade absorvidas pela memória, que nada poderá retirar, pois são marcas cravadas na consciência e no coração de quem se deixa, livremente, envolver pelo movimento sedutor da vida em si mesma…
A sede nos impulsiona para além mar!
No final da peregrinação pessoal, que também implica relações com outros viajantes pelo caminho, aprendemos que a nossa vontade é a última numa decisão, enquanto que a Vontade de Deus precisa ser e estar em primeiro plano na vocação e escolha de cada pessoa – nos relatava Pe. Nedson.
Por fim, arisco a dizer que em toda viagem é sempre bom estar acompanhado de pessoas agradáveis e parceiros, para partilhar os momentos bons e tranquilos, mas também os picos de tensões vividos no percurso. E jamais esquecer de colocar na bolsa um bom livro…este que abre janelas e portas para um novo mundo…
A vida não se perde, apenas se ganha e fortalece em qualquer circunstâncias da vida. Basta sabermos lidar com cada uma delas. Oportunamente gastar a vida com aquilo que é bom!!! – Ser feliz é o que nos resta para o tempo presente.
Seja Feliz…

Santuário Senhor Bom Jesus de Matosinhos (Congonhas do Campo) 

Pe. Waldeir, Pe. Valmir, Seminarista Thulio 
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A FIGUEIRA E SEUS FRUTOS

Pintura: “Jesus amaldiçoando a Figueira” de James Tissot (1886/1894)
A narrativa da figueira, em que Jesus indo em direção à Betânia, reforça a característica paradoxal dos frutos gerados fora do seu tempo. Porém, na ótica da fé, os frutos que o Messias exige da figueira é ato próprio do Senhor da Vida que possibilita tal façanha.
Sem os frutos não poderemos saber se a árvore é boa ou ruim. Ao mesmo tempo em que é preciso concedê-la nutrientes necessários para uma produção positiva (cf. Lc 6, 43-45). Com isso, na perícope Mc 11, 11-26, Jesus não apenas nos apresenta o fato da figueira, como o autor bíblico nos direciona para outros dois elementos: 1) Jesus que expulsa os cambistas do Templo, e 2) a comitiva de Jesus que retorna pelo mesmo caminho, deparando-se com a figueira ressequida. Nesse episódio, vislumbramos as palavras do Cristo sobre a necessidade da fé e da oração. Aqui compreendemos que o alimento de toda espiritualidade é a oração e a fé que se tem em Deus.
Mas o que poderia ser a fé, nesse caso? Uma confiança absolta na ação de Deus, que possibilitaria realizar qualquer desejo/pedido. Num literalismo, pensaríamos que a Divindade seria até manipulada pelo detentor da “fé extraordinária”. Porém, o que convém é vermos que a fé move montanhas. De tal modo que, no seu uso, por meio da oração, esta precisa possuir um conteúdo. Ou seja, apresentar à Deus nossos pedidos. Com isso, a figueira, que pode ser cada cristão, não produz frutos por si, mas pela comunhão com Adonai (Senhor) (cf. HALÍK, 2016, p. 09-12 [demasiada fé?]. E os frutos gerados são sinais visíveis da providência divina agindo em cada ser humano (cf. GUARDINI, 2021, p. 417-425).
Junto a tantos pedidos, que esteja também o fruto do Perdão: “quando estiverdes rezando, perdoai tudo o que tiverdes contra alguém, para que vosso Pai que está nos céus também perdoe os vossos pecados” (v. 25). Aqui está um ponto nefrálgico da fé cristã: a dimensão do perdão diante das ofensas cometidas e recebidas. Assim o próprio Jesus declara: “perdoai, e sereis perdoados” (Lc 6, 37c). Perdoar é próprio de quem ama, mas sem esquecer dos fatos. É a vivencia do perdão e da reconciliação, quando ambas as partes reconhecem suas fraquezas, e se unem como expressão da comunhão com Deus Trindade – amar a Deus que não se vê e amar o próximo, na visibilidade de suas limitações! (1Jo 4, 20). Forte são as expressões do Cristo na Cruz: “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!” (Lc 23, 34) – O Perdão vai além do mal infligido a si, quando superado ou transbordado do Amor que redime.
Assim, “‘O Perdão está na oferta de liberdade que é doada de modo favorável, afetuoso, por parte de Deus’” (RAVASI, 2021 p. 16). Que ao mesmo tempo, somos feitos canais do mesmo perdão ao outro. Perdoados para perdoar! Amados para Amar! Redimidos para ser presença de redenção. Estes são os frutos da figueira (cristão) que tem suas raízes no terreno fértil do Amor divino. Com o perdão, que é realidade divina, mais que humana, os corações são curados…
Por fim, “Se pecar contra ti sete vezes num só dia, e sete vezes vier a ti, dizendo: ‘estou arrependido’, perdoai” (Lc 17, 4). Desse modo, a fé, unida a oração sincera, terá seus efeitos, pois o Reino de Deus terá seu êxito na vida pessoal e da comunidade cristã!
V.rP.
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ESPIRITUALIDADE CRISTÃ

(Pintura: “Reza Matinal” de Jean Baptiste Greuze)
A partir do título em questão, nos deparamos com duas realidades: a dimensão espiritual, que tem por base os princípios cristãos. Princípios estes que têm sua origem na Pessoa de Jesus Cristo e nas experiências transmitidas por outras pessoas que se entregaram na vivencia do mistério da redenção. Segundo Antonio Marín, em sua obra “Grandes Mestres da Vida Espiritual”, destaca que a “espiritualidade cristã se apóia de forma integral e essencial na doutrina de Jesus, completada com a de seus Apóstolos imediatos. Não há e nem pode existir outra espiritualidade legítima e autenticamente cristã” (2019, p. 15).
Mais uma vez, o que seria espiritualidade cristã? No conjunto dos estudos teológicos, temos a Teologia Espiritual. Esta pretendendo-se ajudar na compreensão e vivencia da fé cristã a partir das reflexões dos Santos e dos “Padres da Igreja” com seus métodos e meios espirituais. Certamente sem desconsiderar aquilo que podemos chamar de “espiritualidade encarnada”, ou seja, o espiritual que não desconsidera a realidade propriamente humana. Desse modo, na prática da própria espiritualidade, fundamentada em Jesus Cristo e na tradição da Igreja, visa-se aprofundar na experiência da santidade. Ou seja, no desejo de participar da vida divina e de tornar-se um com Deus.
Em sua essencialidade, sem deixar-se levar por intimismos e espiritualismos exotéricos, requer sempre a formação da consciência – de uma consciência espiritual. Com isso, estamos nos referindo “aquela maneira específica de assumir pessoalmente o dom divino da vida cristã, ou seja, de realizar pessoalmente o conteúdo da fé” (BERNARD, 2014, p. 38-39). Para que isso se efetive, vale trabalhar em nós as dimensões da afetividade e do tempo. Este último tem ligação com a duração da própria espiritualidade, que converge, num mesmo momento, ao amadurecimento dos afetos. Além disso, levando ao progresso da generosidade e da determinação…
É fundamental entendermos que a espiritualidade cristã tem por horizontes as seguintes fontes: Sagrada Escritura, a história da espiritualidade, a experiência pessoal de cada sujeito, bem como o conhecimento de cada pessoa (antropologia). Assim, é diálogo com Deus, saber de si – pecados-limites, virtudes e etc.; conhecimento do mundo e suas influências na pessoalidade de cada um. Assim, ao mesmo tempo que há um crescimento em direção à Deus Trindade, há também um crescimento na condição humana (moral – afetiva). Reforçamos que: “a vida espiritual é sempre vida de um homem concreto com sua história, suas capacidades, seus limites […]” (BERNARD, 2014, p. 15).
Apesar da brevidade do tempo, queremos deixar em evidência que não existe uma forma única e universal de espiritualidade, pois dizemos que há diversos tipos de espiritualidades que convergem a um ponto comum, que é a salvação de todos. São caminhos diversos que levam a uma finalidade primordial: comunhão com Deus e unidade do Corpo Místico (Igreja) (cf. CIgC, par. 2684). Mas quais são as modalidades de espiritualidades? Podemos elencar algumas: inaciana, beneditina, carmelita, franciscana, agostiniana; carismática, contemplativos, mariana, Sagrado Coração de Jesus, Mãos ensanguentas de Jesus, Mães que oram pelo filhos , terço dos homens, vicentinos e dentre outras.
E o que favorece a espiritualidade cristã? Apresentaremos, nesse sentido, alguns elementos primários e fundamentais para a conservação e crescimento da vida espiritual, em cinco vias:
1-Eucaristia: em que se celebra o mistério da redenção do gênero humano. Por meio dela vivemos o calvário e a glorificação de Jesus, e antecipamos a vida definitiva no tempo presente. “A comunhão da Carne de Cristo ressuscitado, ‘vivificado pelo Espírito Santo e vivificante’, conserva, aumenta e renova a vida da graça recebida no Batismo” (CIgC, par. 1393). A Eucaristia é a fonte e o ponto mais alto da experiência cristã (SC., nº 10 ).
2-Confissão: na condição de sujeitos pecadores, nos é possibilitado o retorno à presença de Deus. Isso sendo acessível pelo sacramento da confissão. E é confessando os pecados que confessamos Deus como nosso único Senhor e Mestre (Giraudo). É reconciliando-se com Deus, com os irmãos e com a Igreja, que vislumbramos o Amor de Deus em nós. Para se confessar frutuosamente requer: exame de consciência (contrição), confissão integral dos pecados (leves e graves), apresentar-se ao sacerdote (confissão individual), dispor-se a realizar a penitência (satisfação) e possuir o firme propósito de conversão. “O perdão está na oferta de liberdade que é doada de modo favorável, afetuoso, por parte de Deus” (RAVASI, 2021, p. 16).
3-Leituras Espirituais: em que terá como modelo a vida dos Santos, especialmente a vida de Jesus Cristo – por meio da Leitura e meditação bíblica, modelo supremo de toda criatura. Acima de tudo é “caminhar sobre as pegadas de Jesus” (Marín). Importante a leitura da vida dos santos que viveram a vida casta e foram celibatários, bem como a dos santos casados…
4-Direção Espiritual: é um meio pelo qual cada pessoa busca redirecionar a sua vida. Na direção espiritual, o dirigido apresenta-se ao orientador (sacerdote, religioso ou outra pessoa capaz) suas aflições humanas e espirituais, pontos de crescimentos e dificuldades, para que seja ajudado a permanecer no caminho da virtude e elevação espiritual ou superar os problemas. Para bom proveito da direção espiritual, requer que o dirigido estabeleça, junto ao seu orientador espiritual: a frequência, as metas, um diretor específico que lhe acompanhe, se não o tem, e que tenha abertura para com o mesmo. É fundamental distinguir Direção Espiritual de Confissão sacramental, que devem ser vivenciadas em momentos distintos também. Embora, em ambos os casos, haverem a manifestação da consciência (cf. MERTON, 2022, p.35-47).
5-Orações Pessoais: é o consolo da alma. Como se reza com o salmista: que nossa oração suba como incenso à Deus (Sl 141, 2). As orações podem ser as tradicionais, como por exemplo o terço, como também as espontâneas. O importante é a sinceridade das mesmas. Sejam feitas em comunidade ou pessoalmente, de natureza perseverante e com confiança. Segundo um Anônimo do século XIV, “a oração nada mais é em si mesma do que uma intenção devota que se dirige para Deus, com o fim de alcançar o bem e afastar o mal” (“A Nuvem do Não-Saber”, 2013, p. 114). Além disso, Bento XVI reforça sobre o valor da oração dizendo que “a oração não é somente o alento da alma, mas […] é também o oásis de paz do qual podemos tirar a água que alimenta a nossa vida espiritual e transforma a nossa existência” (2018, p. 67). Por fim, se escolha um ambiente adequado e favorável a vida de oração, seja ela silenciosa-contemplativa ou não… A seu modo, “o santo é uma pessoa com espírito orante, que tem necessidade de se comunicar com Deus” (GAUDETE ET EXSULTATE, nº147).
Para concluir nossa reflexão, deixamos uma oração da terça-feira da V semana do Tempo Pascal. Chamamos a atenção do leitor para as premissas: a) Somos renovados para a eternidade a partir da ressureição de Cristo; b) A constância na fé e na esperança é obra de Deus em nós; c) E a constância de fé e esperança terá como resultado o não colocar em dúvida as promessas do Senhor, em que temos por base a confiança na ação divina.
Oração:
“Ó Deus, que, pela ressurreição de Cristo, nos renovais para a vida eterna, dai ao vosso povo constância na fé e na esperança, para que jamais duvide das vossas promessas. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo“
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PARA PENSAR (1)

Tendo em vista a origem do Cristianismo e sua missão concedida por Jesus, na ação do Espírito Santo, que prevaleça na missão cristã, e humanizadora, o Evangelho. Este sempre será e terá a orientação necessária para os verdadeiros discípulos do Senhor. Sem ele o Cristianismo torna-se mero sistema político como qualquer outro. Desse modo, seu diferencial é ser diferente a partir do ressuscitado, colocando em prática sua convocação: “sereis minhas testemunhas” (At 1, 8).
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EXISTÊNCIA FÁTICA

Obra: “Velho na Tristeza” de Vincent Van Gogh (1890)
Conhecer a si mesmo, expressão sabida a partir da realidade do pensador grego, Sócrates, originária do oráculo de Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”!!! E de tudo o que estamos sujeitos a viver e experimentar, nos cabe voltar a nós mesmos, sem ressentimentos, e iluminar nossa própria condição de vida, de sujeitos existentes: já questionou a si mesmo em seu campo moral, espiritual, humano e dentre outros? Tendo em vista, a seu modo, condições que se liquefazem com facilidade (Bauman) e fluem com rapidez voraz, algo precisa permanecer, a consciência de nós mesmos e de tudo aquilo que vivermos.
Desse modo, que bem possuímos ou que temos total domínio sobre ele? – Talvez a insignificância humana esteja em saber que nada possui além de si mesmo, com suas cargas de experiências boas e ruins que carrega consigo. Mesmo que construa sua vida/existência com outrem, permanece apenas si mesmo, em sua solidão mais profunda, além das muitas indagações postas a si, enquanto respirar. Aqui, possivelmente, esteja o sentido da vida: entrar no interior de si mesmo e descobrir-se numa solidão significada!
Se se colocamos o sentido da vida ou se vivemos em prol de alguém ou de algum objeto material, não nos esqueçamos que em algum momento haveremos de o perder. Tudo se perde! O que não pode acontecer é perder-se a si… Parece-nos que uma das questões mais difíceis de resposta imediata seja “a partir de que princípios ou critérios criar ou escolher esse ou aquele sentido?” (BOFF, 2018, p. 69). Oportuno dizer que os fatos caracterizam a nossa existência. Eles preenchem nossos espaços vazios. Porém ainda continuaremos numa busca insaciável.
A partir do existencialista Karl Jaspers (1883-1969), poderíamos nos questionar sobre qual o “problema do homem” (2011, p. 51-61). Ante isso, ficaríamos ‘medidamente’ satisfeitos em saber que o problema do humano implica em dizer que “está sozinho no mundo imenso e mudo”, ou seja, existe em meio ao caos deste mundo um silêncio que repercute até as entranhas dos sobreviventes. Aqui se situa, a seu tempo, a oportunidade de voltar-se para si mesmo, para sua consciência, com o intuito de redescobrir-se. Este é o conhecimento fundamental que nenhuma ciência moderna poderá acessar ou dominar em sua plenitude.
Não colocamos um ponto final nessa reflexão, mas que de alguma maneira nos ajude a meditar sobre nossos paradigmas, que a nossa “consciência de ser se realiza com base em algo que ele jamais compreende, mas de que acredita participar uma vez que seja ele mesmo” – se somos nós mesmos em tudo, então nada nos desviará do percurso que pretendemos, não haverá modos de alienação que nos retire dos horizontes de realizações. Acima de tudo, nos realizamos pelo que somos! E o “agir comunicativo” parte dessa premissa fundamental do Eu que se comunica de dentro para fora, para o mundo…
Vale ressaltar as expressivas palavras de Saint-Exupéry na sua obra “O Pequeno Príncipe” (2016, p. 74): “você se torna para sempre responsável por aquilo que cativou”… E a partir daquilo que cativamos descobriremos o preço da felicidade!
(V.rP.)
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A PRÁTICA ORDINÁRIA E EXTRAÓRDIONÁRIA DO PERDÃO

A partir do título proposto, temos apenas a pretensão de elucidar alguns aspectos fundamentais sobre o sacramento da confissão. Ato este que precisamos estar conscientes sobre a distinção e vivencia clara do mesmo na sua forma ordinária e extraordinária. Desde já, compreendendo que esse sacramento não imprime caráter, ou seja, se o experimentarmos uma vez, poderemos fazê-lo em outras oportunidades. Por isso não precisamos, ou talvez não podemos – cada um examine a si mesmo – procurar a confissão apenas uma vez por ano, mesmo que seja um ensinamento eclesial (Concílio IV de Latrão)…
É conveniente dizer, a partir do “Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização”, que a pessoa estando em condição de grave pecado, que é sinal de desvio real da vida dos projetos de Deus e d’Ele mesmo, requer um retorno que pode ser vivido por meio do sacramento da penitência (2013, p. 152). Nesse sentido, o Catecismo da Igreja Católica (CIgC) nos abre um leque de nomenclaturas, e que nos ajuda a entender o sentido profundo desse sacramento, podendo ser chamado de: “sacramento da conversão”, “sacramento da penitência”, “sacramento da confissão”, “sacramento do perdão”, “sacramento da reconciliação” (par. 1423-1424). Ao mesmo tempo que é um movimento em direção a Deus, ele também é uma disposição da consciência moral em direção a Igreja e ao próximo. Assim, por meio do ministro ordenado, a Igreja tem o poder de ligar à Deus e desligar do pecado toda pessoa que se dispõe a viver a realidade da misericórdia de coração sincero, com bons propósitos de mudança de vida (cf. Mt 18,18). De fato, como exorta são João, quem diz não ter pecado, mente para si mesmo (1Jo 1, 8). Porém, enfatizamos, a consciência de e do pecado parte da formação da mesma (cf. FERNÁNDEZ, 2004, p.151-159). Por isso que são João Paulo II nos deixa evidente o aspecto danoso de uma consciência que não considera o pecado e suas consequências. Segundo ele, ‘quanto mais se perde a consciência do pecado, menos se procura a Deus! – Diante disso, poderíamos nos perguntar o que proporciona a chamada “crise de consciência”… Sem delongas, ela (consciência), para seu bom proceder, precisa estar ligada a Verdade. Esta que é Deus!!! De tal modo que, em si mesma, é sacrário inviolável onde Deus e o ser humano se encontram na mais profunda intimidade.
No exame de sua consciência, percebendo seu estado de pecado (pecados graves e leves), procurando o sacerdote, não deixe de apresentar tudo aquilo que é pecado: em número e espécie (CIC, c. 988). Tendo firme propósito de emenda e conversão, além de cumprir a satisfação (penitência) aplicada pelo sacerdote confessor…
Para tanto, existem diversas formas de confissão e absolvição dos pecados segundo o “Ritual da Penitência” (confissão), porém nos ateremos apenas a duas, nas suas condições preliminares: confissão comunitária e a individual, esclarecendo que a forma ordinária, prescrita pelo Direito Canônico (c.960) e pelo próprio “Ritual da Penitência” (nº. 31) é a confissão individual – conhecida também como auricular. Sendo que a confissão comunitária é uma oportunidade concedida pela Igreja em situações extraordinárias.
A confissão comunitária com absolvição geral é aconselhável nas seguinte situações: 1) “Haja iminente perigo de morte, e não haja tempo para que o (s) sacerdote (s) ouça (m) a confissão de cada um dos penitentes”. 2) “Haja grave necessidade, isto é, quando por causa do número de penitentes não há número suficiente de confessores para ouvirem as confissões de cada um, dentro de um espaço de tempo razoável […]” (Ritual da Penitência, Praenotanda, nº 31; cf. nº 32 -34). Isto não se justifica, a confissão comunitária, em casos de romarias, peregrinações ou festividades.
Nesse sentido, requer avaliar se o sacerdote (pároco, vigário, administrador paroquial) dispõe de dias e horarias para atender seus fiéis, bem como se os mesmos procuram o sacerdote ao longo do ano para se confessarem. Não deixando para o ‘último dia ou hora’…
Além das disposições acima, 3) para “lucrar validamente a absolvição dada simultaneamente a muitos, requer-se não só que esteja devidamente disposto, mas que ao mesmo tempo se proponha também confessar individualmente […] os pecados graves que no momento não pode assim confessar” (CIC, c. 962). A partir desse cânone, já implica a obrigatoriedade de se fazer uma confissão individual após a confissão comunitária em tempo oportuno (cf. c. 963). E em caso de grave necessidade, como orienta a legislação e os documentos da Igreja, participar de uma confissão comunitária, uma segunda vez, antecedida de uma individual (auricular).
Em suma, “a confissão individual e integra e a absolvição constituem o único modo ordinário com o qual o fiel, consciente de pecado grave, se reconcilia com Deus e com a Igreja; somente a impossibilidade física ou moral escusa de tal confissão; nesse caso, pode haver a reconciliação também por outros modos” (CIC, c. 960). Assim, vale reforçar a ideia de uma auto-avaliação, nesse sentido, se a procura e prática da confissão comunitária é sinal de comodidade do clero e do povo de Deus, ou se de fato é uma necessidade. Do contrário inverte-se a ordem e o favorecimento pleno da misericórdia por meio da proximidade entre confessor e penitente, orientação a partir da condição de vida da pessoa-penitente em seu estado real de vida, até mesmo para melhor contribuição para superação das condições de pecado em que a pessoa se encontra, etc. Todo confessor precisar estar ciente de que nem todos, ou a maior parte, pastoralmente analisando, conhecem as devidas orientações da Igreja quanto a confissão comunitária. Cabendo aos sacerdotes exercerem seu múnus de ensinar com sabedoria!!! E não (somente) o de santificar por conveniência.
Por meio das expressões do cardeal Gianfranco Ravasi (2021), precisamos elucidar da melhor forma possível a “teologia do perdão” em que “o perdão é fruto do amor” (p. 15). Amor este visivelmente encontrado na Cruz! Agora, os caminhos para se chegar a expressão desse Amor redentor, cabe a cada um discernir segundo o Espírito Santo atuante na Igreja, que é Espírito de Sabedoria!
Imagem: “Jesus e a mulher apanhada em adultério” do pintor Célio Nunes (2012)
(V.rP.)
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VAIDADE

Não temos pretensões de nos delongarmos nesta reflexão sobre um tema tão relevante para nossa cultura hodierna. Paradoxalmente, apenas pretendemos elucidar a existência do que já está em evidência. Até nos parece contraditório, mas necessário nos atermos a este elemento fundamental, a vaidade.
A vaidade, enquanto conceito, expressa, segundo William Pereira, a realidade de quem é vazio, que sustenta-se na aparência, no afã ilusório da vida. Ainda é possível de se dizer que o vaidoso vive segundo uma “fantasia de ilimitado sucesso, poder, fascínio, beleza e amor ideal de si mesmo” (2021, p. 71). É um sujeito cheio de si mesmo, em que não tem espaço para experiências fora de si.
Diante disso, nos deparamos com as categorias do egocentrismo. O de querer só para si. Cheio de si, então apenas permanece em si mesmo, sem abrir-se às novas experiências de deixar-se incomodar ou tocar pelas outras pessoas. Está blindado com as próprias vaidades de um ego inflado de si, mesmo que não contenha nenhum conteúdo satisfatório, de humanismo e solidariedade. Move-se pela simples necessidade de ser percebido. Não apenas é vaidoso, como suas ações linguísticas e morais são expressões visíveis de suas vaidades. O que pensa sobre si e sobre o outro parte do crivo principal da vaidade! Clássica é a colocação do livro bíblico Eclesiastes (1, 2): “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”. Esse refrão é útil para compreendermos que só é possível ultrapassar esta condição quando se assume as próprias fraquezas, e percebe-se que fechando-se em si mesmo não se pode conquistar o progresso de um vida autêntica e feliz.
Numa das viagens do Pequeno Príncipe, o mesmo deparou-se com um morador, no segundo planeta, tido como vaidoso. Segundo ele, sujeitos vaidosos têm os outros apenas como admiradores. E assim podemos interpretar que o outro é apenas um expectador na vida do vaidoso, e seu valor está em dirigir-lhe homenagens. É factício o que diz o Pequeno Príncipe: “Mas o vaidoso não ouviu. Os vaidosos só ouvem elogios” (2016, p. 47), ou seja, atém-se apenas ao que lhe interessa ou convém e é perceptível ao seu ego, do contrário não se importa com as críticas ou recomendações de mudança de hábitos.
Nesse sentido, podemos concluir que a vaidade está no nível também do narcisismo. Por isso que o Mito de Narciso nos ajuda a elucidar esta condição de existir. De tal modo que precisamos nos ater aos riscos de estarmos sempre voltados para nós mesmos, sem percebermos para onde estamos indo ou o que estamos deixando de vislumbrar no caminho. Fato é que existe uma beleza surreal para além de nos mesmos. Para vivê-la é preciso não deixar-se levar pelo orgulho. Um dos perigos do vaidoso é este, tornar-se orgulhoso (cf. Pr 21, 24).
Para combater a vaidade em sua raiz, um dos cominhos a serem trilhados é a humildade. A prática dessa virtude faz com que a pessoa assuma sua condição de sujeito frágil, que não poderá viver por si, mas que seja capaz de criar teias de relações para superar a si mesmo, porém sem perder sua própria essência e pessoalidade singular. Que a humildade anteceda qualquer pretensão de honras (Pr 18, 12).
Se pesquisarmos no Dicionário Aurélio, o mesmo nos dirá que a vaidade significa: “frivolidade, fatuidade, presunção” (2000, p. 701). Sendo seu antônimo: despojamento, que não é presunçoso, singelo, vive na simplicidade.
Talvez tenhamos que discordar, por justa causa, da colocação de Nietzsche, na “Gaia Ciência”, quando o mesmo diz que é preciso esconder os próprios defeitos para com a pessoa que se ama. Para que assim o amado seja visto como um deus. Aqui reside as pretensões de uma sutileza vaidosa. O filósofo diz: “quando amamos, queremos que nossos defeitos permaneçam ocultos” (2012, p. 164), porém enfatizamos que quando se ama, é importante apresentar-se como se é, sem falsidades ou mascaras que dificultam o verdadeiro e pleno conhecimento de si mesmo pelo(s) outro(s). Pois quando não se conhece quem se é e não se deixa conhecer, pouco se pode dizer que se ama de verdade.
Por fim, quando são João descreve o amor de Deus pela humanidade expressando: “Deus amou tanto o mundo que entregou seu Filho único pela salvação dos homens” (Jo 3, 16), deixa evidente que em Deus não há falsidade, mentira ou ilusões. Seu amor é verdadeiro. Por isso mesmo deixou-se conhecer… (cf. Jo 1, 18). em linguagem pobremente humana, em Deus não há vaidade, mas pura humildade, pois esvaziou-se de si mesmo para dar-se Todo aos que amam!
Pintura: “Narciso” de Caravaggio (1597/1599).
(V.rP.)
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VIDA POÉTICA

O poeta ou o grande poeta, se assim podemos chamar, é alguém que tem um olhar sensível para o mundo muitas vezes enrijecido pela obrigatoriedade de existir.
Ele, o poeta, brinca com a vida e suas condições de existir, dando novo sabor e formas as coisas que se lhe envolvem no cotidiano. Poesia não é para qualquer pessoa. É para quem sabe vislumbrar o poético sentido da própria vida.
Existem àqueles que produzem poesia. Outros que apreciam as poesias produzidas por alguém. De tal modo que ainda há um outro nível de pessoas que são indiferentes a esse tido de literatura. Porém, todos têm em comum a busca pela flexibilidade da vida.
A poesia está nas palavras, nos sentimentos, nos pensamentos, nos gestos… A poesia não precisa de ética, nem de moralidades, pois descontrói todas as formas comuns da história. Fala do não dito; torna visível o invisível; preenche o vazio, mesmo que totalizado pela presença fútil das experiências. O poeta, com sua poesia, lida com a realidade como uma criança que simplesmente brinca com a vida, deixando-se levar pela pura e simples ingenuidade. Detendo-se no que há de mais belo e formidável nas experiências vividas. Lida com prazer com a vida, morte, alegria, tristeza, riqueza, pobreza, altura e baixeza, profundidade e sobre a superfície, enfim. É o poético mundo novo!
A arte poética encontra-se diariamente conosco, sujeitos racionais. O desafiador, do sujeito poético, nesse sentido, é superar a petrificada racionalidade para dar lugar a sensibilidade estética. Talvez pensarmos a partir de Nietzsche, de que a poesia possa, de fato, conter em si irracionalidades, porém contendo sempre elementos de beleza, até mesmo bela em si mesma (2012,p.104). A poesia expressa a genialidade, a elevação de espírito, a metafórica condição da vida. Assim, pode-se compreender que “as encantações e fórmulas mágicas parecem constituir a forma primeva da poesia” (Ibid., p. 106).
Destarte, “com licença poética” nos escreve Adélia Prado (2022, p. 19):
“[…] Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. […] Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linguagens, fundo reinos – dor não é amargura. Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. […] Mulher é desdobrável. Eu sou”.
Assim, levemente lida consigo, com os outros, com a vida e suas ramificações. A vida em si mesma e por si já é poesia. A vida está poeticamente pintada, sonorizada e descrita no ritmo da divinização. Aqui está contida a leveza do ser!
(V.rP.)
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“Perdoai, e sereis Perdoados”

A expressão forte que nos estimula neste tempo é o Perdão. “Perdoai, e sereis Perdoados” são palavras exortativas de Jesus Cristo, quanto a capacidade de perdoar e sermos generosos uns para com os outros (cf. Lc 6, 37). Elas estão no conjunto elucidativo em que somos chamados a não julgar e nem a condenar, pois se o fizermos também teremos a triste sorte de sermos julgados e condenados. Preferindo como opção fundamental a medida do amor!
Por sua vez, vale realçar a compreensão do perdão que só pode ser vivido por pessoas que profundamente sabem amar. Esta condição de amor, gerando a reciprocidade, faz com que todos sejam capazes de olhar o próximo com misericórdia – “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6, 36) . Diante das nossas misérias nos deparamos com a benevolência de Deus…
Tendo em vista as palavras do Papa Francisco, sobre uma necessária ‘cultura do encontro’, nos apercebemos ainda com a declaração do cardeal Walter Kasper, sobre uma urgente ‘cultura da misericórdia’. Mas só poderemos avançar nesta última se nos deixarmos interpelar pela primeira. Ou seja, só pode haver cultura da misericórdia quando superarmos a dimensão do distanciamento, aproximando-nos, não só os corpos, mas os corações sensíveis. E na sensibilidade do Espírito, nos deixarmos moldar pelas relações profundamente humanas.
Desse modo, a experiência litúrgica, contida no Ato Penitencial, por exemplo, nos leva a compreensão de que toda forma de perdão se fundamenta na relação do sujeito pecador ou ofendido com o seu oposto. Assim, o pecador tende sempre em plenitude viver na relação com os santos e com o mais próximo de si. Com as palavras do rito litúrgico, vimos a necessária invocação dos santos, dirigindo-se aos irmãos, suplicando sua intercessão, tendo como elemento inicial o “Confesso a Deus todo poderoso”. Em seguida, vai-se dilatando esta realidade para com os irmãos: “E a vós irmãos e irmãs”. Esta conquista não se constitui só pela força humana, mas requer o poder de intercessão dos santos e do próprio Deus uno e trino. Assim, a formula de absolvição sacramental (sacramento da confissão) tem como principio a Trindade: fala de Deus Pai, do Cristo que redimiu o mundo, do Espírito Santo que foi enviado para remissão dos pecados, bem como da Igreja, que por sua vez, é canal de perdão e paz. Tudo isso para nos referirmos a condição de comunhão…
Além disso, o sacramento da confissão faz considerar não apenas os pecados cometidos contra Deus, mesmo que partindo do decálogo ou dos mandamentos da Igreja, enfim. Mas leva em consideração os pecados ou ofensas cometidas contra o seu (meu) próximo. Não só reconciliar-se com o irmão que se ofendeu, mas que sejamos audazes na reconciliação com os que nos distanciaram de si mesmos. Por isso que Cristo enfatiza: “Se, portanto, ao levares a tua oferenda ao altar, te lembrares de que teu irmão tem algo contra ti, deixa a tua oferenda lá diante do altar, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão e, então, volta para apresentar a tua oferenda” (Mt 5, 23-24). A partir disso, entende-se que a vida ritual-sacramental está profundamente ligada com as disposições do coração e da vida em comunidade. A comunhão com Deus, nesse sentido, está implicada também na vida comunitária. Enfatiza João: “Se alguém disser: ‘amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é mentiroso” (1Jo 4, 20). A capacidade de amar ao Deus, de amor absoluto, então na sua intimidade, enquanto compromisso moral e espiritual-religioso, se deve amar o outro, que é diferente de nós.
Assim como o pecado pode estar caracterizado por pensamentos, palavras, atos e até mesmo atitudes de omissões, o ato de perdoar funda-se nos horizontes de dispor-se de si mesmo, num processo de saída, em direção ao ofendido. Este ato provoca ambas as partes a auto-reflexão e tomada de consciência e no assumir uma nova postura, enquanto família humana e cristã, de abertura ao que busca perdão e que se abre a reconciliação num ato de misericórdia e humildade.
Quantas vezes se deve perdoar? O perdão não tem limites (Mt 18, 21). Basta desejar e colocar-se a perdoar e ser perdoado. Quem não faz a experiência do perdão não possui garantias de um amor autêntico, pois o verdadeiro amor tudo perdoa, atesta são Paulo (1Cor 13, 7). Pois Deus tanto amou, e continua a nos amar, que entregou seu Filho única para a salvação dos homens (cf. Jo 3, 16; 1Jo 4, 9-10). Logo entendemos que o perdão passa pelo crivo do amor que sempre redime. Perdoar é um ato divinamente redentor!
O perdão sempre tende a nos redirecionar ao dinamismo da ressurreição, pois é redentor. Além disso, faz despertar em nós uma nova vida após superarmos os sinais de morte que marcavam a vida interior, a pureza e a paz da consciência, que é sacrário inviolável do ser humano (são João Paulo II). No perdão se encontra o alívio e a leveza do divino em nós. O Pai Nosso, assim, é primordial oração pois nos esclarece: “perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos ofendeu”. Porém isto só pode ser concretizado por quem tem um coração sensível. “O grande obstáculo a uma vida de Deus não é a fragilidade e a fraqueza, mas a dureza e a rigidez” em que nos deparamos (MENDONÇA, 2013, p.119).
Diante de tudo isso, fica forte o realismo de que precisamos suplicar a Deus um coração puro e um espírito sempre resoluto (cf. Sl 50, 12). Deixando mais claro, precisamos elevar aos céus: ‘Dai-me Senhor uma consciência pura e uma inteligência decidida’. Tendo em conta a firme esperança de que Deus não deseja a morte do pecador, mas que mude de conduta e viva para sempre (Ez 33, 11).
Pintura: “O retorno do filho pródigo” de Bartolomé Esteban Murillo (1667).
(V.rP.)
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TENHO FOME!

A Campanha da Fraternidade (CF) deste ano de 2023 busca retratar e conscientizar a sociedade civil e religiosa para um dos grandes desafios do nosso tempo: a fome. Esta realidade não é abstrata ou aferida para simples debate ideológico, político ou de partidarismo. Coloca-se em questão a própria dignidade da vida humana.
A diferença, próprio da natureza humana e de suas relações, acabou-se por se tornar fator ou sinônimo de desigualdade. Todos são iguais? Não. Porém, enquanto seres humanos, todos possuem a mesma dignidade e, por direito natural, deveriam possuir o essencial para sobreviver como pessoa. O que é de todos tornou-se propriedade de poucos. Ao mesmo tempo, nos firmar somente nesta premissa, e nos atendo a questioná-la por mera formalidade intelectual não resolverá o problema social em questão, que é a fome.
Por que a fome impera na sociedade globalizada? Sabendo de suas causas aplicaremos satisfatórias soluções. Desde já enfatizamos que temos fome de vida, existência, respeito, moradia, realização dos próprios sonhos, ser visto-sentido e percebido. Tem-se fome de tecnologia, de justiça, liberdade, educação, lazer. Famintos estamos por uma vida que não seja desqualificada e compreendida como objeto de manipulação em massa por ‘sistemas imperialistas’.
A fome tornou-se doença, pois destroe as camadas existenciais do tecido social! Os números apontam, por meio de pesquisas (CF, p. 51-60), os famintos de arroz, feijão e outros produtos em suas vidas. Ao mesmo tempo precisamos ser provocados e nos deixarmos sensibilizar pelas múltiplas fomes cadentes em nossa cotidianidade.
A satisfação, o bem-estar pessoal em nossas casas, relações familiares, trabalho e dentre outros contextos, em muito, não nos deixam sair do baluarte fantasioso de pensar que tudo está como num “jardim em Édem”. Ou seja, com tudo isso, pode-se pensar que já se vive num paraíso na terra. Casa comum esta, a terra, que não reflete sua verídica condição, que é a miséria camuflada pela ideia de que tudo está resolvido.
Numa linguagem grotesca, é possível encontrarmos cadáveres ambulantes em nossas praças, avenidas, ruelas e periferias. Serão apenas fantasmas, vultos que não nos tocam as entranhas do ser Totalmente Humano . Assim, evidencia-se que o problema do outro não é nosso. Que o mal do próximo não nos compete tomar parte. – Talvez o importar-se se dê a partir do momento em que um ‘sujeito’ rouba nossos bens (materiais) de nossa casa. Mesmo assim não se dará conta, na profundidade dos fatos, de perscrutar a origem das motivações para se chegar a esta condição de vida, ou as causas que levam uma pessoa ou família a mendigar. É certo, “A desigualdade não afeta apenas os indivíduos”, mas todos, até mesmo uma nação. O coletivo, tendo em vista as individualidades (sujeitos), vai se enfraquecendo com o tempo como num efeito cascata – um desafio que acaba por gerar outros (cf. LS, nº 51).
O Pai Nosso que rezamos em comunidade dominical não nos interpela a ponto de querermos pão para todos, sem exclusões. O Pão ainda não é nosso. De forma alguma! No fundo de muitos corações ressoa a arrogância: ‘o pão é meu!’ – Até quando isto será? – Como nos diz a canção, que este “cálice” nos seja afastado, e que nos prontifiquemos a estarmos mais alertas para com a corrupção dos direitos e deveres dos cidadãos constituídos numa democracia.
Oferecer com uma mão e retirar com a outra é sinal que não se estará vivendo a radicalidade do Evangelho. Uma Eucaristia desejada por muitos e praticada por poucos representa a fragilidade da fé e a superficialidade com que nos dispomos a compreender e praticar o cristianismo. Vale ressaltar que a Eucaristia é uma “forma da existência cristã” (SC, nº 70). Existe por causa D’ela e por meio da mesma se torna uma Igreja “eucaristizada”. Nela estão contidos todos os valores morais, antropológicos e espirituais que se devem prevalecer… A celebração e vivencia eucarística implica o envolvimento de toda a vida e da vida na sua totalidade. Ela é o motor que deveria nos mover sempre ao bem comum – comum união, que é a comunhão de pessoas.
O Deus que nos dá de comer, nos possibilita também dar de comer a quem tem fome, sem precisar despedir o pobre de mãos vazias (Mt 14, 16). O pouco que se tem torna-se muito quando partilhado com o coração agraciado pela presença de Deus. Percebendo-se pertencente a uma única e universal família, a de Cristo Jesus.
Que a oração e o jejum nos ajudem na transformação interior de nós mesmos. E que a Caridade (amor), que é gratuidade, nos leve sempre mais a olhar para o próximo com um olhar de misericórdia. Construamos uma “sociedade à medida do homem, da sua dignidade, da sua vocação” (CV, nº 9).
Urge redescobrir “um amor que ultrapassa as barreiras da geografia e do espaço” (FT, nº 1), atendo-se ao essencial da vida. Assim, praticando a própria fé no cuidado uns para com os outros. Deus Cuida de nós para que cuidemos uns dos outros, porque somos um só povo em seu amor!
Pintura: “Velho Mendigo com Menino” do espanhol Pablo Picasso (1881-1973).