-
X

O que fazer?
Tem algo que possa ser feito?
Por que fazer alguma coisa?
O vazio talvez seja a melhor experiência (Bernanos). Ele pode ser assustador para quem não se paralisa diante dos acontecimentos da vida.
Sobre si mesmo, o que para exprimir além do nada que somos diante da vastidão do universo.
Somos pequenos seres num macrocosmos. A vida é infinitamente mais do que podemos conceber de imediato. O imediatismo nem sempre corresponde às expectativas humanas. Tudo que imediatamente tem sua resposta é fugaz, passageiro, sem raiz, sem fundamento sólido.
O X da questão é ser sempre inquieto diante das provocações que as condições nos fazem (Agostinho). Somos e desejamos ser algo mais. E o incômodo do não ser ou a incompleta saciedade do ser que nos leva a novas possibilidades e desafios.
O Humano é insaciável em suas buscas! – Temos sede de ser.
Em meio ao turbilhão confuso do agir humano, haverá alguém à busca do extraordinário. Somos sujeitos do extraordinário! O que é ordinariamente requer ser levado ao encontro do extraordinário, para que assim encontre luz, prazer, satisfação, plenitude.
-
IMITAÇÃO DE CRISTO

A vida de Paulo foi imitar a Cristo, após sua experiência mística com o Ressuscitado, quando de sua ida à Damasco numa caçada voraz aos cristãos (cf. At 9, 1-22). Os cristãos perseguidos de outrora, agora são consolados pelas palavras iluminadoras do grande Apóstolo dos gentios. Além das palavras transmitidas, percebemos sua coerência de vida. E por isso chama-nos a fazer o mesmo: “Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo” (1Cor 11,1).
Sua imitação não consiste em ações teatrais vazias de sentido e significados. Não fundamentam-se em ideias e teorias ilustrativas, em seu cume abstrato. Todavia, vive como quem tem clareza de sua fé e missão. Por isso reforça dizendo que seu viver é totalmente Cristo. É o Cristo Senhor que, por meio dele e nele, vive e se manifesta. O Senhor Jesus que deixou a primazia de seu exemplo, faz com que o Apóstolo não se intimide diante dos desafios e não evidencie outra Verdade se não Ele mesmo, o enviado do Pai (cf. Balthasar, 2023, p. 28-29).
Quando saímos à rua, manifestamos aos demais a imagem de nossa origem, da nossa família. Isso pode ser aplicado ao contexto da fé. Quando agimos no meio humano-social, transparecemos o tipo e a natureza de Cristianismo que cremos, professamos e buscamos viver. Somos o reflexo da fé assumida. A imitação tanto mais será verdadeira, quanto mais encarnados na vida de Cristo estivermos.
O cristão raiz é aquele que não vive conforme a moda do tempo, mas a partir da Pessoa Cristo que se espelha e torna-se íntimo. Em Antioquia os seguidores do Caminho são chamados cristãos (cf. At 11, 26). A partir do Batismo, a pessoa é nomeada e marcada com o selo indelével da Graça divina como cristã. Ou seja, pertence agora, e partir daquele momento sacramental, a Família ou Membros do Corpo (comunidade) de Cristo Jesus, Cabeça que a tudo governa.
A imagem do Cristo é corrompida, deteriorada, e até mesmo desfigurada, quando nos deixamos submeter ao desnivelamento da corrupção, oriunda do pecado e das propostas múltiplas do mundo contemporâneo que distorce a realidade salvífica de Deus.
Tomás Kempis (2013) nos ajuda a rezar com propósitos de imitar sempre mais a Cristo: “Dai-me, Deus meu, o santo propósito de imitar vosso divino Filho e meu Senhor Jesus Cristo; purificai minha intenção conforme o desejo que me dais, de maneira que todo eu, de dentro e de fora, só a vós olhe, a vós contemple, a vós ame, por vós suspire e em vós descanse” (p. 20).
Assim, como podemos imitar a Cristo? Sendo, acima de tudo, bons e fiéis cristãos. Valendo-se pela prática da caridade, no assumir a cruz de cada dia, no serviço generoso aos irmãos e a Igreja, e pelo exercício espiritual da oração que nos mantém vivos no Amor às experiências sobrenaturais. Toda imitação a Cristo exige um desapego das vaidades do mundo.
-
Religião e Cotidiano

autor: Pereira, VR
Começaremos com uma pergunta básica: Estamos diante de duas possibilidades de existir ou é possível as duas num único ser? – acrescento outra questão: o sujeito religioso no seu cotidiano ou o cotidiano no emaranhado religioso?
As questões postas acima faz refletir sobre nossa adesão de crença e seu impacto ou reflexo no nosso dia-a-dia. Falar de religião enquanto se tem uma doxa (opinião) é sempre fácil. Todavia, ater-se aos elementos mais relevantes, históricos, críticos, narrativos e de Tradição é fator mais complexo do que podemos imaginar.
Nem todo religioso sabe de sua religião. Sua adesão parece ser desconhecida ou sem fundamento, pois ignora sua estrutura, sua lógica de funcionamento. Nem todo aquele que tem religião terá, por consequência, ciência de sua engrenagem. Será que determinado indivíduo optou por seguir dada crença por profunda convicção ou por mera formalidade?
Desse modo, percebe-se que a relação religiosa com a vida diária de alguém está limitada a sua ignorância (desconhecimento). Assim, a divindade e a função social possível dessa mesma crença subjuga-se ao crivo limitado da noção também limitada de quem a pretende exercer. Tudo parece girar ao entorno das demarcações do pensamento e da moral fragmentada que possui do universo amplo da religião. Um Deus, uma moral e uma fé conforme as suas medidas.
Se cada um concebe religião ou estruturas de crenças a seu gosto, logo seria mais viável que todos também pudessem ter a sua própria religião ou sistema de crença – “cada um no seu quadrado”. Individualizando esquemas que compraziam apenas ao seu criador, sem expansão de ideias e formas geométricas de práticas fideístas.
Cabe ressaltar que religião causa tanto bem como o mal. É um instrumento utilizado conforme as pretensões do usuário. Também pode ser uma máscara, onde pessoas se escondem e se disfarçam para manipular e tirar proveito pessoal das circunstâncias.
Por fim, é bom refletirmos como estamos vivendo nossa adesão pessoal de fé, de crença. Procurando saber se ela está ajudando ou dificultando a própria condição de vida. Uma coisa é certa: “[…] Deus está acima das práticas religiosas, dos esquemas programados que garantem [,ou dizem garantir,] uma fácil salvação” (Mendonça, 2023, p. 268). -
VOCACIONADOS DO ETERNO

O caminho a percorrer acontece e se desenvolve por meio de uma motivação interior, até mesmo maior que as experiências acidentais ou circunstanciais que podemos viver. A via mestra do nosso fim ultimo é sempre uma vida feliz. Condição essa que implica voltar para o eterno, sem fechar-se para a realidade existencial. Somos impelidos para o sobrenatural, mas ao mesmo tempo estamos lidando, a todo instante, com a realidade humana, material e provisória.
Diante disso, é bom frisar que não somos dualismo e contradição, pelo fato de sermos e poder sermos compreendidos como síntese. Ou seja, somos uma síntese entre o eterno e o temporal, entre o humano e o eterno, entre a vida e a morte, entre o histórico e o permanente. Tudo isso nos leva a crença de que a condição do ser pessoa no mundo pauta-se na lógica da realização da própria condição em que se vive. O que nos falta só pode ser suprido pelo infinito. Assim nos faz refletir o grande pensador Kierkegaard.
O referido autor nos proporciona o seguinte pensamento: “O si-mesmo humano é uma tal relação derivada, estabelecida, uma relação que se relaciona consigo mesma e ao relacionar-se consigo mesma se relaciona com um outro” (2023, p. 11). Na compreensão de quem se é procuramos, nesse desejo profundo, de encontrar-se com o outro, mesmo que seja desconhecido. É no encontro com Deus, por exemplo, o Deus pessoal, é que desvendamos os mistérios do sentido de nossa vida, principalmente mediante nossa vocação.
Nossa vocação é eterna, desde a eternidade o Criador nos sonhou e nos projetou para sermos suas expressões belas e encantadoras, do seu mistério insondável. Desse modo, vocação nasce do eterno coração de Deus. E as palavras de Adonai a Jeremias fundamenta nossa perspectiva humana e espiritual, porque nos conhecia antes de existirmos no ventre materno, e antes de chegarmos ao mundo pelo nascimento, Ele já nos consagrou como sendo seus (cf. Jr 1, 4-10).
Com isso entendemos que o Senhor está sempre nos chamando e esperando de nós uma resposta condizente com o seu chamado, expresso em nossa vocação pessoal. Assim como Cristo olhou para Levi, depois chamado Mateus, também vivenciamos o mesmo olhar. Ele nos olha com um olhar de predileção e misericórdia, e nos convida a segui-lo. Agora requer saber se estamos dispostos a abandonar tudo e colocar-se à caminho.
Você está disposto a seguir Cristo Jesus por um bem maior?
Pintura: Infinito – do italiano Tonino de Luca (2008)
-
O Menos que se Torna Mais

A matemática é simples. A importância de fazer o menos para ater-se ao mais. Ou seja, deixar de fazer aquilo que prejudica a nossa vida pessoal, familiar, social e religiosa, para buscar apenas o que favorece o crescimento das experiências já citadas…
Nossas famílias, comunidades de fé e sociedade serão bem mais edificantes quando deixarmos de lado o que nos divide, atrapalha a comunhão e a vivência pacífica e misericordiosa.
Por isso, requer menos fofoca, mais diálogo; menos preguiça, mais serviço; menos inveja, mais altruísmo; menos mentira, mais verdade; menos intolerância, mais acolhimento; menos vaidade, mais humildade; menos intrigas, mais parcerias nos trabalhos; menos concorrência, mais solidariedade…O que poderíamos acrescentar a esses elementos e que nos ajudariam a crescer como seres humanos?!
Estamos num tempo histórico que nos pede e nos exige um pouco mais de mudança de hábitos. O tempo muda, consequentemente precisamos nos deparar com as urgentes modificações que precisamos realizar em nossa vida, mas para o bem.A mudança quando começa de nós, logo tende a tornar-se parte de todo o ambiente que frequentamos. O diferencial de toda ação está na pessoa que o realiza!
O valor não está nas marcas caras que nos vestem e calçam, mas na postura que tomamos sobre nós e os outros. Ser lembrado pela elegância nas palavras, pelo sorriso, por causa da simpatia e maestria em lidar com as circunstâncias. A simplicidade torna-se a mais valiosa virtude, gerando outras tantas que nos apresentam como pessoa.
Toda forma de ser diferente nos pede um pouco mais de sacrifícios. Assim, “Boas maneiras são compostas por pequenos sacrifícios” (Emerson apud Carnegie, 2019, p.95). Se se desejamos algo ou alguma mudança, então ela vai acontecer pela força da vontade e da ação que fazemos para que ela possa realizar-se (cf. Carnegie, 2019).
VrP.
-
O CAMINHO PARA A PERFEIÇÃO

Se todos os caminhos levam a Roma, é possível dizer que diversas trilhas nos levam a perfeição. Basta discernir e escolher a que mais propicia o engajamento nesse objetivo fundamental da vida.
A humildade, a saber, é uma das vias acessíveis e importantes para a busca da perfeição. Isso se torna evidente quando olhamos para a experiência da Virgem Maria. Ela que, ao cantar os feitos de Deus, diz que Ele olhou, não para outras qualidades ou virtudes, mas primeiramente para a sua humildade - "porque olhou para a condição humilde de sua serva" (Lc 1, 48). É por isso que Santo Afonso alega, aos falar-nos das glórias de Maria, que a sua primeira virtude é a humildade, dente tantas outras. Reconhecendo, assim, sua pequenez diante do Criador, enquanto criatura, deixando-se conduzir e se envolver por Ele.
Toda pessoa humilde é capaz de lidar com sujeitos de boa e má fama. Na simplicidade perceberá o lado bom e ruim das situações e das pessoas, não deixando-se envaidecer pelas circunstâncias que o favoreçam. Nada há de mais nobre numa pessoa que sua singular discrição, podemos enfatizar. Já nos dizia Santo Agostinho, se queremos ser grandes, comecemos por sermos pequenos. É da pequenez que se encontra a grandeza dos atos e das formas!
O próprio Jesus convida-nos a sermos humildes, pois Ele mesmo o é. Assim ouvimos e lemos: "aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração" (Mt 11, 28). Só não conseguirá alcançar tão nobre virtude quem se predispõe a ser orgulhoso, cheio de si; arrogante e prepotente!
Por meio da humildade obtém-se a santidade e a caridade torna-se mais generosa, pois "o ser manso e humildade é a proteção da caridade" (Sº Agostinho, Sobre a Epístola aos Gálatas).
Se buscamos a perfeição em tudo, procuremos ser humildes também em tudo. Em tudo que somos e pretendemos ser. Cientes e confiantes de que Deus protege e cuida dos humildes e rebaixa os soberbos de mãos vazias. O humilde tem sempre "sua confiança em Deus e não no mundo" (cf. Kempis, 2013).
Como meio para atingir e crescermos nessa tão luminosa virtude, indicamos para leitura a obra "A Prática da Humildade - e outros escritos de santos", do papa Leão XIII (2022). Esse escrito é um clássico da literatura espiritual. - Aproveite!!!
(VrP) -
“A Prática do Amor a Jesus Cristo”

É promissora as palavras que dizem: o amor não exige nada em troca, ama simplesmente por amar! – Ou seja, o amor é sempre gratuito, abnegado e ilimitado. Sublime exortação do profeta Jeremias quando nos diz que Deus tem para conosco um amor eterno (Jr 31, 3). Fazendo valer a compreensão de que Deus, desde a eternidade, tem nos amado. E a expressão desse amor encontra-se visivelmente no seu Filho Jesus Cristo entregue na Cruz pelos nossos muitos pecados e imperfeições.
O amor está fundamentado na diferença das pessoas envolvidas. Isso se diz sobre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, bem como sobre nós. Conforme Santo Agostinho, em sua teologia da Trindade, nos faz entender que o Pai é o Amante, o Filho é o Amado e o Espírito é o Amor. E esse amor, que é dinâmico, perfeito, santificante e dentre outras características, reside em nós por meio do Batismo e da santa Crisma. Por isso é importante tomar consciência de que o Amor de Deus está em nós, assim como precisamos estar em Deus.
Mas por que Deus ama? Deus nos ama por simplesmente amar, porque Deus é amor (1Jo 4, 8). Logo só pode amar aqueles que possuem vida íntima com Deus e é impelido por Ele a manifestar sua presença divinizante: “Caritas Christi Urget nos” – o amor de Cristo no impele (2 Cor 5, 14).
Quando fazemos um percurso bíblico, teremos maior ciência dos ensinamentos da Tradição viva do Cristianismo. A lei mosaica, no seu primeiro artigo, diz que é preciso amar a Deus sobre todas as coisas (Ex 20, 1-4; 34, 14). Assim nada pode ser sobreposto ao nome e a experiência com Deus. Seguidamente temos a Profissão de fé judaica, em que o povo é chamado a amar a Divindade com todo coração, com toda a alma, com todo o entendimento, em suma: com todo o seu ser (Dt 6, 5). A ponto que o próprio Jesus nos ensina devermos amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo também (cf. Jo 15, 12).
Desse modo, amar a criatura é meio para se amar de modo perfeito o Criador. Todavia requer um pouco de atenção para não deixar-se desviar pela beleza intrínseca das coisas criadas, abandonando o primeiro propósito, que é estar na presença amante do Senhor. O único gozo desejado é amar a Deus Trindade!
A prática do amor a Jesus Cristo implica na conformidade da própria vida a vida de Deus, em tudo! Sabendo que “Só uma coisa é necessária: amar a Deus e salvar a alma” (LIGÓRIO, 2022, p. 249). A perdição provém para aqueles que odeiam a gratuidade do amor divino em suas vidas. Isso só pode ser inferno! Pois odiar a Deus é, não só merecer, mas também escolher a morte eterna. Sendo que o amor tende sempre a gerar e conceder vida.
A única e exclusiva experiência que preenche o vazio do coração humano é o amor de Deus. E só pode ser vivida na assídua prática da oração, da confissão, da vida de Eucaristia, da caridade e do sofrer com paciência. Em suma, o amor nos leva a amizade profunda com Deus.
-
O Trabalho e a Dignidade Humana

O Mês de Maio tem seu início com uma grande celebração no Cristianismo católico, que é a vida de São José, conhecido como o operário ou o trabalhador. Patrono dos trabalhadores universalmente reconhecido. Isso firmou-se em 1955 com o Papa Pio XII, com o intuito de nos elucidar sobre o valor do trabalho para o bem da própria dignidade humana…
Por obra do Espírito Santo trabalhamos, e somos exortados, a trabalhar pela causa do Reino, da Justiça e da Paz. É certo que o poder intrínseco do trabalho consiste no aperfeiçoamento das capacidades e virtudes do ser humano: intelectuais, morais e espirituais. Sendo, assim, uma via benéfica para a vida plena e perfeita. Nos tornando, com isso, participantes da obra da criação e da salvação. Por isso é bom sabermos que Deus cria salvando, e salva criando. E no tempo presente participamos ativamente desse processo salvífico. A salvação não começa no além, mas já no presente concreto da família humana.
É preciso trabalhar, mas também é justo descansar! Assim como Deus trabalhou na obra da criação e no sétimo dia repousou (cf. Gn 2, 2). Nesse sentido, o Trabalho é para o Homem, assim como o Domingo é para o seu Descanso! – Descansar a alma: pela prática religiosa, da fé, das devoções populares; Descansar a mente: pelo lazer, por meio das boas companhias, com experiências recreativas e culturais; Descansar o corpo: pelo sono e repouso merecidos, bem como pela janela dos sonhos realizados, satisfação dos afetos e dos prazeres.
O trabalho é um direito inalienável, ao mesmo tempo que se constitui um dever. Trabalhar para cuidar de si, da família e do próximo. Por isso Paulo nos alerta que não deve comer quem não trabalha (2Ts 3,10). Cientes de que todo trabalhador merece seu salário, seu digno sustento (1Tm 5,18).
Todos têm direito ao trabalho justo e digno: jovens, mulheres, homens, pessoas com limitações intelectuais e físicas. A Doutrina Social da Igreja (DSI) é clara ao dizer que o trabalho é necessário, assim como é um bem de todos (n° 288).
Diante de tudo isso, precisamos de uma atenção redobrada para não sermos maquiavélicos e nem aceitar o maquiavelismo. Em que se pratica o mal, as injustiças no campo do trabalho para se obter o lucro desmedido. Fazendo do ser humano mero instrumento da técnica para fins mercenários. O trabalho é, e não pode ser outra coisa, se não um meio para a conquista do bem da pessoa humana em si mesma. Não se deve injustiçar, alienar e escravizar a pessoa para se alcançar o lucro do trabalho gananciosamente estabelecido, porque o trabalho, esclarecemos, tem como finalidade promover a dignidade de todo sujeito humano.
Mediante o poder que o ser humano vem adquirindo ao longo dos séculos, a Igreja acentua para o fato de que, quanto mais cresce o nosso domínio sobre as coisas, mais aumenta também nossa responsabilidade pessoal e comunitária de nossas adesões e escolhas (Gaudium et Spes, n°33-34).
Bom é ouvir do Salmista que em vão trabalhamos se Deus não trabalhar conosco cf. Sl 127,1). Peçamos a Ele, Senhor da vinha e de toda vida, para estar sempre conosco em nossas tarefas humanas e espirituais diárias, para que possamos construir um mundo onde todos participam da mesma mesa: a do amor que se doa sem medida. Eis o árduo trabalho pela perfeição de nossas vidas!
(São José Operário – 01/Maio)
-
Fazer a Minha ou a Tua Vontade?
Inspiradoras as palavras do mestre de Nazaré: “o meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou” (Jo 4,34). Somos sempre impelidos por uma força motriz que provém do nosso íntimo, do mais profundo do nosso ser, onde Deus tem sua morada…
Somos buscadores de nós mesmos e da satisfação de nossa própria existência. Todavia, como peregrinos, precisamos deixar-nos moldar pelas experiências de um verdadeiro discípulo do Cristo: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6, 68).
Para além da procura meramente humana, está a busca pelo sentido da vida, a saciedade dos nossos desejos e anseios mais profundos… Se procuramos cegamente, sem direção, algo ou alguém, logo nos deixaremos envolver por qualquer situação da vida. Entretanto, se nos movemos pelo Espírito Santo de Deus, saberemos exatamente o que, onde e como encontrar.
Estão a procura de Jesus, nos relata são João em seu evangelho (Jo 6, 22-29). Mas os buscadores se apresentam com intenções adversas. Suas intenções não são exatamente sobrenaturais, mas simplesmente humanas. Estão a procurar um “fazedor de milagres” _ podemos imaginar. Não buscam um Jesus salvador, libertador, que redime e transforma… Estão iludidos pelos instintos primitivos e não se deixam libertar para com uma realidade e uma experiência maior, que é a experiência de eternidade.
Santo Afonso de Ligório nos faz refletir que Deus nos prepara e nos garante uma felicidade sem fim, não para este mundo, mas para o Céu. “O céu é nossa pátria, lá Deus nos preparou o repouso em uma eterna felicidade” (2022, p. 57).
Com isso, nada pode ser mais deleitável que saber que todas as nossas vontades mais íntimas/profundas só podem ser satisfeitas na vida em Deus. Bento XVI na sua obra, “minha herança espiritual”, destaca que o ser humano tem sede de Deus, do infinito, de eternidade. Por isso que somos provocados a questões fundamentais, diante das nossas buscas e vivências da fé no tempo atual. Tempo esse que favorece novas formas de paganismo…
Ao mesmo modo, é preciso nos indagar: onde está Deus, para que o possamos encontrar? Já nos encontramos e nos deixamos encontrar com o Senhor ressuscitado? O que nos faz buscar Cristo? Estamos na direção certa? O que precisamos abdicar para uma vida plena em Deus?…
As respostas só podem ser oferecidas por cada um que procura no Deus da vida a sua realização…
Saborear o alimento da vida eterna é a garantia de uma vida boa, porém não sem sofrimentos e desafios. Com isso, são Gregório Magno (L.H., Laudes do Domingo do Bom Pastor) nos orienta dizendo que “o alimento dos eleitos é o rosto de Deus, sempre presente. Ao contemplá-lo sem cessar, a alma sacia-se eternamente com o alimento da vida”. Somente em Deus teremos o que procuramos, o repouso e o descanso de nossa alma. Para tanto, fazer, não a nossa, mas a vontade Dele, é o que nos torna dignos de sua majestade infinita.

Pintura: “Dois Caminhos” ou a “Queda”. Pintor: Antônio Santos. -
“Felicidade Conjugal”

O tema é título de uma obra de Lev Tolstói, grande literato nascido em 1828 na Rússia, falecido em 1910, quando de uma crise existencial, deixava a família e tentara refugiar-se num mosteiro aos 82 anos…
O que mais desperta a curiosidade é já o título de sua obra, “felicidade conjugal”, pois o termo felicidade já aguça o desejo de toda pessoa que tende a qualquer experiência que favoreça o ápice de uma fida feliz. Ainda mais quando se trata de uma vida a dois, em que um precisa fazer o outro feliz. Por isso que se compreende casamento como fazer os outros e não a si mesmo realizado.
A vida a dois sempre implica uma renuncia em vista do bem do outro, e quando isso não é mais vivido, logo vem o fracasso e as decepções. Não está em questão quem pode mais, mas quem abre mão da própria felicidade para fazer o outro feliz, pois este está sempre, e precisa estar, em primeiro plano.
Os encantos, afetos e atrações dos primeiros momentos são bons. Todavia requer pensar a longo prazo, pois a vida conjugal é experiência perpetua e se estende na história, por ser uma realidade divina, não só humana (CIgC, par. 1603). O amor conjugal, assim, está para além das aparências e das meras satisfações humanas. Por isso implica, a seu modo, um despertar vocacional. Só pode ser feliz na vida conjugal quem é vocacionado ao amor matrimonial.
Mesmo que o tempo destrua a beleza estética-física, num verdadeiro amor ainda permanecerá a beleza interior e a atração afetiva pelo outro. Desse modo, demonstra a permanência com o que é essencial e superior a tudo que é passageiro. Desse modo, a experiência do encanto e do deixar-se encantar pelo parceiro de viagem leva a seguinte conclusão: “[…] além do seu amor por mim, ele também se extasiava comigo” (p. 78). De fato, Matrimônio é uma “união de toda a vida” (cf. CIC, c. 1055). O eu por inteiro e todo entregue e recebido numa relação!
A felicidade conjugal não está na ausência de sofrimentos e sacrifícios, mas no assumir conscientemente as consequências dessa escolha, de uma condição de vida fundamental. Tendo em vista as diferenças e qualidade de cada um que favorecerão a vida a dois. Sendo que na diferença se fortalece a unidade! – não com tentativas de sobreposições entre um e outro, porém contribuindo e somando com aquele que precisa crescer integralmente na sua espiritualidade e humanidade. Sendo, assim, uma só carne, tendo uma só aspiração, que é o bem de todos, sua santificação e salvação!
autor: V.,rP.