Não temos pretensões de nos delongarmos nesta reflexão sobre um tema tão relevante para nossa cultura hodierna. Paradoxalmente, apenas pretendemos elucidar a existência do que já está em evidência. Até nos parece contraditório, mas necessário nos atermos a este elemento fundamental, a vaidade.
A vaidade, enquanto conceito, expressa, segundo William Pereira, a realidade de quem é vazio, que sustenta-se na aparência, no afã ilusório da vida. Ainda é possível de se dizer que o vaidoso vive segundo uma “fantasia de ilimitado sucesso, poder, fascínio, beleza e amor ideal de si mesmo” (2021, p. 71). É um sujeito cheio de si mesmo, em que não tem espaço para experiências fora de si.
Diante disso, nos deparamos com as categorias do egocentrismo. O de querer só para si. Cheio de si, então apenas permanece em si mesmo, sem abrir-se às novas experiências de deixar-se incomodar ou tocar pelas outras pessoas. Está blindado com as próprias vaidades de um ego inflado de si, mesmo que não contenha nenhum conteúdo satisfatório, de humanismo e solidariedade. Move-se pela simples necessidade de ser percebido. Não apenas é vaidoso, como suas ações linguísticas e morais são expressões visíveis de suas vaidades. O que pensa sobre si e sobre o outro parte do crivo principal da vaidade! Clássica é a colocação do livro bíblico Eclesiastes (1, 2): “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”. Esse refrão é útil para compreendermos que só é possível ultrapassar esta condição quando se assume as próprias fraquezas, e percebe-se que fechando-se em si mesmo não se pode conquistar o progresso de um vida autêntica e feliz.
Numa das viagens do Pequeno Príncipe, o mesmo deparou-se com um morador, no segundo planeta, tido como vaidoso. Segundo ele, sujeitos vaidosos têm os outros apenas como admiradores. E assim podemos interpretar que o outro é apenas um expectador na vida do vaidoso, e seu valor está em dirigir-lhe homenagens. É factício o que diz o Pequeno Príncipe: “Mas o vaidoso não ouviu. Os vaidosos só ouvem elogios” (2016, p. 47), ou seja, atém-se apenas ao que lhe interessa ou convém e é perceptível ao seu ego, do contrário não se importa com as críticas ou recomendações de mudança de hábitos.
Nesse sentido, podemos concluir que a vaidade está no nível também do narcisismo. Por isso que o Mito de Narciso nos ajuda a elucidar esta condição de existir. De tal modo que precisamos nos ater aos riscos de estarmos sempre voltados para nós mesmos, sem percebermos para onde estamos indo ou o que estamos deixando de vislumbrar no caminho. Fato é que existe uma beleza surreal para além de nos mesmos. Para vivê-la é preciso não deixar-se levar pelo orgulho. Um dos perigos do vaidoso é este, tornar-se orgulhoso (cf. Pr 21, 24).
Para combater a vaidade em sua raiz, um dos cominhos a serem trilhados é a humildade. A prática dessa virtude faz com que a pessoa assuma sua condição de sujeito frágil, que não poderá viver por si, mas que seja capaz de criar teias de relações para superar a si mesmo, porém sem perder sua própria essência e pessoalidade singular. Que a humildade anteceda qualquer pretensão de honras (Pr 18, 12).
Se pesquisarmos no Dicionário Aurélio, o mesmo nos dirá que a vaidade significa: “frivolidade, fatuidade, presunção” (2000, p. 701). Sendo seu antônimo: despojamento, que não é presunçoso, singelo, vive na simplicidade.
Talvez tenhamos que discordar, por justa causa, da colocação de Nietzsche, na “Gaia Ciência”, quando o mesmo diz que é preciso esconder os próprios defeitos para com a pessoa que se ama. Para que assim o amado seja visto como um deus. Aqui reside as pretensões de uma sutileza vaidosa. O filósofo diz: “quando amamos, queremos que nossos defeitos permaneçam ocultos” (2012, p. 164), porém enfatizamos que quando se ama, é importante apresentar-se como se é, sem falsidades ou mascaras que dificultam o verdadeiro e pleno conhecimento de si mesmo pelo(s) outro(s). Pois quando não se conhece quem se é e não se deixa conhecer, pouco se pode dizer que se ama de verdade.
Por fim, quando são João descreve o amor de Deus pela humanidade expressando: “Deus amou tanto o mundo que entregou seu Filho único pela salvação dos homens” (Jo 3, 16), deixa evidente que em Deus não há falsidade, mentira ou ilusões. Seu amor é verdadeiro. Por isso mesmo deixou-se conhecer… (cf. Jo 1, 18). em linguagem pobremente humana, em Deus não há vaidade, mas pura humildade, pois esvaziou-se de si mesmo para dar-se Todo aos que amam!
Pintura: “Narciso” de Caravaggio (1597/1599).
(V.rP.)

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