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TENHO FOME!

TENHO FOME!

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A Campanha da Fraternidade (CF) deste ano de 2023 busca retratar e conscientizar a sociedade civil e religiosa para um dos grandes desafios do nosso tempo: a fome. Esta realidade não é abstrata ou aferida para simples debate ideológico, político ou de partidarismo. Coloca-se em questão a própria dignidade da vida humana.

A diferença, próprio da natureza humana e de suas relações, acabou-se por se tornar fator ou sinônimo de desigualdade. Todos são iguais? Não. Porém, enquanto seres humanos, todos possuem a mesma dignidade e, por direito natural, deveriam possuir o essencial para sobreviver como pessoa. O que é de todos tornou-se propriedade de poucos. Ao mesmo tempo, nos firmar somente nesta premissa, e nos atendo a questioná-la por mera formalidade intelectual não resolverá o problema social em questão, que é a fome.

Por que a fome impera na sociedade globalizada? Sabendo de suas causas aplicaremos satisfatórias soluções. Desde já enfatizamos que temos fome de vida, existência, respeito, moradia, realização dos próprios sonhos, ser visto-sentido e percebido. Tem-se fome de tecnologia, de justiça, liberdade, educação, lazer. Famintos estamos por uma vida que não seja desqualificada e compreendida como objeto de manipulação em massa por ‘sistemas imperialistas’.

A fome tornou-se doença, pois destroe as camadas existenciais do tecido social! Os números apontam, por meio de pesquisas (CF, p. 51-60), os famintos de arroz, feijão e outros produtos em suas vidas. Ao mesmo tempo precisamos ser provocados e nos deixarmos sensibilizar pelas múltiplas fomes cadentes em nossa cotidianidade.

A satisfação, o bem-estar pessoal em nossas casas, relações familiares, trabalho e dentre outros contextos, em muito, não nos deixam sair do baluarte fantasioso de pensar que tudo está como num “jardim em Édem”. Ou seja, com tudo isso, pode-se pensar que já se vive num paraíso na terra. Casa comum esta, a terra, que não reflete sua verídica condição, que é a miséria camuflada pela ideia de que tudo está resolvido.

Numa linguagem grotesca, é possível encontrarmos cadáveres ambulantes em nossas praças, avenidas, ruelas e periferias. Serão apenas fantasmas, vultos que não nos tocam as entranhas do ser Totalmente Humano . Assim, evidencia-se que o problema do outro não é nosso. Que o mal do próximo não nos compete tomar parte. – Talvez o importar-se se dê a partir do momento em que um ‘sujeito’ rouba nossos bens (materiais) de nossa casa. Mesmo assim não se dará conta, na profundidade dos fatos, de perscrutar a origem das motivações para se chegar a esta condição de vida, ou as causas que levam uma pessoa ou família a mendigar. É certo, “A desigualdade não afeta apenas os indivíduos”, mas todos, até mesmo uma nação. O coletivo, tendo em vista as individualidades (sujeitos), vai se enfraquecendo com o tempo como num efeito cascata – um desafio que acaba por gerar outros (cf. LS, nº 51).

O Pai Nosso que rezamos em comunidade dominical não nos interpela a ponto de querermos pão para todos, sem exclusões. O Pão ainda não é nosso. De forma alguma! No fundo de muitos corações ressoa a arrogância: ‘o pão é meu!’ – Até quando isto será? – Como nos diz a canção, que este “cálice” nos seja afastado, e que nos prontifiquemos a estarmos mais alertas para com a corrupção dos direitos e deveres dos cidadãos constituídos numa democracia.

Oferecer com uma mão e retirar com a outra é sinal que não se estará vivendo a radicalidade do Evangelho. Uma Eucaristia desejada por muitos e praticada por poucos representa a fragilidade da fé e a superficialidade com que nos dispomos a compreender e praticar o cristianismo. Vale ressaltar que a Eucaristia é uma “forma da existência cristã” (SC, nº 70). Existe por causa D’ela e por meio da mesma se torna uma Igreja “eucaristizada”. Nela estão contidos todos os valores morais, antropológicos e espirituais que se devem prevalecer… A celebração e vivencia eucarística implica o envolvimento de toda a vida e da vida na sua totalidade. Ela é o motor que deveria nos mover sempre ao bem comum – comum união, que é a comunhão de pessoas.

O Deus que nos dá de comer, nos possibilita também dar de comer a quem tem fome, sem precisar despedir o pobre de mãos vazias (Mt 14, 16). O pouco que se tem torna-se muito quando partilhado com o coração agraciado pela presença de Deus. Percebendo-se pertencente a uma única e universal família, a de Cristo Jesus.

Que a oração e o jejum nos ajudem na transformação interior de nós mesmos. E que a Caridade (amor), que é gratuidade, nos leve sempre mais a olhar para o próximo com um olhar de misericórdia. Construamos uma “sociedade à medida do homem, da sua dignidade, da sua vocação” (CV, nº 9).

Urge redescobrir “um amor que ultrapassa as barreiras da geografia e do espaço” (FT, nº 1), atendo-se ao essencial da vida. Assim, praticando a própria fé no cuidado uns para com os outros. Deus Cuida de nós para que cuidemos uns dos outros, porque somos um só povo em seu amor!

Pintura: “Velho Mendigo com Menino” do espanhol Pablo Picasso (1881-1973).

2 respostas para “TENHO FOME!”.

  1. Avatar de Rosa Pereira Gomes Goncalves
    Rosa Pereira Gomes Goncalves

    Urge, nestes tempos de tanto desenvolvimento e tecnologia, sairmos da nossa zona de conforto e enxergarmos “Os Cristos Partidos” a nossa volta e não mudarmos de lado,
    evitando estes encontros.
    A beleza e verdades que rezamos na oração do “Pão Nosso”, precisa sair de nossas bocas e se fazer ação na vida e na mesa de tantos que os buscam no árduo dia-a-dia sem norte e esperança.
    Peçamos a Cristo um coração misericordioso para transformarmos os “Círculos Viciosos”em “Círculos Virtuosos” para que o Reino aconteça.

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  2. Avatar de Rosa Pereira Gomes Goncalves
    Rosa Pereira Gomes Goncalves

    Urge, nestes tempos de tanto desenvolvimento e tecnologia, sairmos da nossa zona de conforto e enxergarmos “Os Cristos Partidos” a nossa volta e não mudarmos de lado,
    evitando estes encontros.
    A beleza e verdades que rezamos na oração do “Pão Nosso”, precisa sair de nossas bocas e se fazer ação na vida e na mesa de tantos que os buscam no árduo dia-a-dia sem norte e esperança.
    Peçamos a Cristo um coração misericordioso para transformarmos os “Círculos Viciosos”em “Círculos Virtuosos” para que o Reino aconteça.

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