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PENSAMENTO

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“O que o faz homem, porém, é justamente não se bastar com o que dele a natureza fez, mas ser capaz de [se] refazer com a razão […]” (SCHILLER).

Não é novidade a premissa de que o Humano é um ser racional. Ele é superior as demais realidades do tempo pelo simples fato de ser denominado ou caracterizado para além de suas sensibilidades biológico-sensitivas. Desse modo, diferindo-se dos demais seres criados porque é capaz de transformar a si mesmo e toda a sua condição, todos os meios em que vive é possível de mutações. A racionalidade como ferramenta audaz de manipulação de todas as coisas.

Em contraposição aos animais, tidos como irracionais, que agem pelos instintos ou pelo mero impulso de sua natureza animalesca, o ser humano tem domínio de si e possui poder de controlar as circunstâncias… É pontual, assim podendo, compreendê-lo como uma “espécie que sabe” (Mosé). Ou seja, conhece a si mesmo, desvenda os mistérios da natureza e faz todas as coisas possíveis se convergirem a seu favor. Tudo isso nos leva a crer que tem no fundo de si mesmo pretensões de poder por meio da racionalidade. O poder da razão explode-se e se desencadeia em um universo de consequências: para o bem e para o mal; para a construção de um mundo melhor ou para uma nefasta guerra que aniquila seus semelhantes.

Ao mesmo tempo, mesmo o sujeito possuidor de uma razão alienadora e destruidora das relações e do universo, há no fundo de todos as conquistas e pretensões, a possessão da verdade. A saída da caverna das ilusões e a absorvência do sol da pura verdade o torna cego em vista dos fatos reais que podem acarretar uma postura impensada. Nesse sentido, coloca-se, ao mesmo tempo, em questão os princípios universais da identidade e da unidade. Percepção de si e do outro, bem como a correspondência ética e moral dos eventos socio-humanitários.

Aquela razão que outrora poderia subjugar tudo e todos, agora encontra-se num paradoxo: ser dona de si ou dispor-se de si mesma em prol da redenção humana. A humanização da razão parece partir dos princípios norteadores contrários a instrumentalização desta mesma razão advinda da globalização do sujeito social democrático. É oportuno percebermos que o pensamento, produto da razão instrumentalizada, forja uma condição de vida, de existir, que nem sempre concede ao sujeito pensante um patamar diferente ou superior aos outros animais…

Por isso que o gozo de ser sujeito pensante é a dor mais voraz dos humanos em suas fragilidades. A conquista da elaboração do pensamento de poder criar e recriar, inventar e reinventar a própria existência, mesmo que seja uma conquista, pode tornar-se um fardo pesado de ser carregado! O ‘princípio liberdade‘, por sua vez, parte desta compreensão. Ou seja, se é livre quando se pensa, quando obtém o usa da própria razão; quando a pessoa decide-se por si, toma as rédeas da própria vida – é como àquele que assumindo a si mesmo resolve construir sua história na autonomia mais autêntica. É a perda das ilusões da vida a partir dos horizontes da ascensão humanística. Tendo em conta que sua autonomia, apesar dos sistemas de controle, é sua capacidade de criticar-se, o mesmo sistema que ele precisa para sobreviver e o mundo externo a si mesmo (Kant)…

Não basta tão somente saber pensar, é preciso atingir o patamar de um pensamento revolucionário, que na individualidade ou no conjunto, sua potencialidade seja impactante. É certo que há um prazer profundo quando se consegue pensar para além das quiméricas situações normativas do cotidiano – é colocar a cabeça para além fronteiras.

Como ser sujeito de pensamento? O primeiro impulso é deixar-se incomodar pela realidade em que se encontra: a vida, o amor, a liberdade, o trabalho, os estudos, as pessoas, as experiências boas e ruins, os projetos de vida, o cansaço da vida, enfim. É percorrer o profundo das questões que nos parecem banais. A banalidade da vida pode ser um encantamento promissor para a construção do pensamento (cf. LIBANIO, 2014, p. 37-39). O ser filosofante nasce do útero das indagações sobre o comum. O espantar-se ou comover-se é a condição originaria do pensar! (HEIDEGGER, 2013, p. 29).

É por meio do pensamento criativo, porque somos sujeitos de criação, é que nos construímos e nos desenvolvemos. Pensar é arte! Somos seres artisticamente pensantes! Doamos e recebemos pensamentos coerentes e inválidos no tocante as nossas adesões pessoais e coletivistas.

O aspecto preponderante para não tornar-se “animal de rebanho” ou de ser reduzido ao nível da massificação é pensar. Se destacar pelo pensamento evolutivo! Sendo que pensar não é estar contra, mas saber qual é o seu lugar e/ou seu papel naquela situação. Mediante a liquidez dos fatos que se tornam, em grande número falsificação do real, então é formidável se amparar no grivo da razão crítica. Porém, um ponto forte precisa ser elencado: não nos esquivarmos dos conteúdos do pensamento! Sua elaboração e exposição. Ater-se aos meios, os instrumentos de transmissão e aplicação. Pensar está totalmente vinculado ao agir. Se se pensamos, logo temos o poder de ação estratégica. Com isso, o medo não pode ser ferramenta de paralização da produção de pensamento… Ele é importante para nos manter vivos e atentos ao real que somos e nos circunda, porém não pode chegar a ser o dominante. Medo este que poderá ser um outro sujeito, bem como instituições e circunstâncias (Russell).

Nos parece que, diante de tudo isso, é formidável falarmos do poder da razão que do pensamento em si. Até mesmo nos colocarmos em questionamento sobre a dialética, ou melhor, a relação entre razão e pensamento: o pensar é produto da razão? Pensamento pensa a si mesmo, tornando-se, assim, conteúdo e resultado de um mesmo ato de pensar? Mesmo sendo sujeitos pensantes poderemos permanecer na ingenuidade? Sem o pensar, resultado de nossas elaborações racionais, ainda seremos capazes de saber que sabermos de nossa existência?… Estas e outras questões poderão aparecer ao longo da nossa vida, principalmente com fortes tensões em momentos de crises existenciais. Pois as crises, de diversos níveis, são positivas, se bem aproveitadas, para o crescimento pessoal – provoca novas posturas.

O pensar não é uniforme, é multifacetado! Por isso que todos têm o direito a um pensamento simples e também complexo (MOSÉ, 2014, p. 52). Se o receptor compreende ou não, é outro desafio… Importa salientar ainda que diante de um pensamento enviesado, não nos cabe interpretar somente, mas construir um outro pensamento que, provocados pelo primeiro, nos leve ao progresso. Pensar não é reproduzir o que o desconhecido elaborou em sua noite escura ou de luminosidade, mas é significar a própria condição que os produtos da história nos proporciona…

Quem não pensa e não produz pensamento é fechado em si mesmo!

Imagem: “O Pensador” de François Auguste-René Rodin (1902/1904).

2 respostas a “PENSAMENTO”

  1. Avatar de Luciana Rodrigues
    Luciana Rodrigues

    🌹☺️☺️

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  2. Avatar de Walace Machado Lacerda
    Walace Machado Lacerda

    Talvez, a compreensão de que o pensamento nos leve além da mera sensibilidade biológica seja um problema na neurobiologia.

    Ora, o pensamento em si é um produto sensível do organismo pensante, ou melhor, ele é um sentido entre os mais conhecidos (tato, olfato, visão, paladar e audição).

    Muitos problemas sérios estão em questão. A filosofia da mente pode nos ajudar nisso. O que é consciência? Qual o seu conteúdo? Como se consegue esse conteúdo?

    Além dos problemas mais complexos: explicar a interação abstrata das redes neurais com as demais partes do corpo; explicar a interação das informações neurais; explicar como alcançamos a atribuição de poder à fala e à escrita (o que nos leva a criação de narrativas milenares; construções de culturas diversas e, especialmente, a evolução de um estado mais civilizado, etc).

    Muitas outras nuances são particulares do problema mente-corpo, mas aqui é válido ressaltar a tradição literária que exaltou o aspecto da “razão” no ser humano: a história, propriamente dita, e a filosofia. Ora, em análise rigorosa para melhor explicar a realidade nós nos deparamos com as ideias de naturalismo e monismo (em acepções neurobiológicas).

    Enfim, o pensamento não é tão fascinante assim, mas um dos seus aspectos – a criatividade – é mais fascinante.

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