“O corpo é uma grande razão, uma multiplicidade com um sentido, uma guerra e uma paz, um rebanho e um pastor” (Nietzsche).
O que poderíamos dizer sobre o ser corpo e sua expressão que podemos chamar de sexualidade? – Somos corpo. Somos desejo. Somos afetos. Somos emoções, enfim. Somos o que somos e o que entendemos ser: um universo complexo!
É perante tudo isso que na comunicação ou no diálogo com o mundo manifestamos quem somos. Filosófica e existencialmente questões fundamentais são postas: Quem sou eu? Para quem sou? O que ser? Qual meu fim último? – Enfaticamente, é certo: somos corpo, afetos, emoções, sentimentos. Somos linguagem, comunicação. Somos seres que busca o prazer e a diminuição da dor!
Muitas vezes enfrentamos o mundo que nos cerca para sermos felizes por vias inaceitáveis, como por exemplo: drogas, bebidas, sexo sem limites – um gozar momentâneo da vida. Vivemos submersos numa onda ilimitada do prazer fugaz. A geração recente, que não quer dizer somente jovens e adolescentes do século XXI, é marcada pela prática do “carpe diem”, ou seja, do curta a vida ou desfrute do presente momento sem perspectivas de futuro que se faz preservar. Todavia, tudo isto se torna vaidade das vaidades, como enfatiza o Eclesiastes (1, 2). Há uma força hedonista dominante entre as jovens gerações, que requer atenção e zelo por parte das pessoas esclarecidas.
Nos deparamos, ainda, com a infeliz Ética utilitarista, ou seja, colocar-se como objeto de prazer para o outro e fazer do outro mero instrumento das satisfações pessoais (egoísmo), desqualificando-a de todos os seus valores sobre-humanos. Por isso que os valores universais do humanismo tornam-se desacreditados…
A partir desse foco ou feixe de luz, começamos a perceber que não podemos confundir Sexualidade com Genitalidade: a) Sexualidade: é a manifestação do seu ser no mundo, é o ser pessoa, é seu modo de ser e existir para e entre as outras pessoas (o meu ser homem e o seu ser mulher) – Sexualidade está no nível do Psíquico/no espiritual/no moral, além do biológico… b) Genitalidade: é a sexualidade expressa, também, na genitalidade masculina e feminina (cf. CONSELHO PONTIFICIO PARA A FAMÍLIA, 2017, p. 15-18). Condição esta que precisa de amadurecimento da consciência. Somente após saber quem se é, se é possível humanamente viver a genitalidade. O tormento do momento são as inúmeras influências ideológicas e sexistas que deturpam o processo saudável de desenvolvimento biológico e psíquico dos jovens e adolescentes (cf. Amoris Laetitia, nº 280-286). E a cegueira-ingenuidade de muitos formadores de consciências…
Talvez uma das explicações plausíveis sobre as situações adversas da adolescência, por exemplo, estejam relacionadas a insuficiente descoberta do corpo, e até mesmo pela estimulação ‘globalizada’ das mídias, além da sede pessoal de prazer confrontada com a pornografia e do corpolatrismo – que é a pessoa nessa selva hedonista?
Por outro lado, a linguagem também tem sua importância. É válido termos atenção ao dizermos que “fazer sexo” é o mesmo que “fazer amor”, porque Amor é gratuidade, é dom, é doação, é graça. Bíblica e teologicamente falando, “Deus é amor” (1Jo 4, 8.16), e é por isso que toda forma de amor está em Deus: Ágape, Filia e Eros (cf. BENTO XVI, 2007, p. 19). Porém não posso reduzir a mera satisfação pessoal em amor. Que muitas vezes ultrapassa a lógica das satisfações e dos desejos humanos. Deus é O Amor doador de si mesmo expresso na Cruz redentora de Nosso Senhor Jesus Cristo. E Cristo não é uma ideologia, pensamento ou ideia, mas uma Pessoa. Desse modo, o amor é encontro de pessoas maduras e livres na entrega mútua para a plena felicidade! Uma “união de toda a vida” na gratuidade de si mesmo (cf. CIC, c. 1055)…
Compreendermos a sexualidade humana como valor, é ao mesmo tempo valorizarmos o outro como Pessoa em si mesma. É a “expressão da existência” para si e para o outro. Sexualidade é uma condição e uma dimensão existencial – é o que favorece nossa percepção indenitária: eu sou ou o nós somos! (Cf. VIDAL, 2002, p. 107-116).
Toda visão sadia da pessoa humana parte de uma antropologia também saudável sobre o ser humano. Assim, seres integrados: corpo-alma-consciência (E. Sthein). Por isso a importância enfática de uma ‘teologia do corpo’, ou seja, de um estudo mais profundo sobre a corporeidade humana. A dignidade do sujeito histórico também consiste na compreensão do valor primordial do corpo: numa via religiosa e das ciências humanas. Porém sem reducionismos. Podemos nos situar num contexto necessário de redescoberta da consciência moral e da inocência original contida nas manifestações linguísticas de cada um (cf. PAULO II, 2019, p. 83).
Somos corpo! Somos linguagem! Somos vida! Somos um mundo de significados e expressões… Ciente de tudo isso, é tempo então de saber o que fazer com nosso próprio ser e existir. Gerir-se a si mesmo à luz de novos horizontes – sem a falsificação do próprio Eu!
Sexo e sexualidade precisam estar integrados, de tal modo que, mesmo sem o manifesto sexual, a sexualidade ainda pode ser vivida na base fundamental de toda consciência comunicativa!
Pintura: “O nascimento de Vênus” do italiano Sandro Botticelli (1482/1485).

Deixar mensagem para Luciana Rodrigues Cancelar resposta