Tendo em vista aquilo que norteia nossa visão de mundo, o jogo tem por base divisões simples que asseguram o desenvolvimento orgânico de uma partida ou empreitada competitiva. Existem, como se pode perceber, quatro níveis distintos de sujeitos: torcedores, oponentes – são os times que concorrem ao prêmio, o juiz e os treinadores. Além destes, existe uma classe meramente capitalista que visa tão somente vender seus produtos sem interesse objetivo na competição explicita do contexto em que se encontra.
As forças e pretensões são diversas para quem se coloca dentro do campo de competições. Desde os torcedores até os treinadores, todos anseiam pela conquista do primeiro lugar, ou seja, pela posse do poder que lhe concede um status social superior a todos os demais. Desse modo, todas as formas de forças físicas e psíquicas serão aplicadas, bem como as estratégias de jogo. O importante não parece ser uma jogada limpa, racional e prática, mas a influência forte no tocante aos desejos da massa, a ridicularização do oponente em sua moral e caráter, a enfatização das poucas obras realizadas – fator de dever como servidor. E diante da pobreza estratégica, cresce a preferência pela ideologização de estruturas e sistemas externos ao jogo político, envolvendo pessoas, personalidades públicas e privadas na tentativa de arrebanhar o maior número possível de adeptos…
Os argumentos, em sumidade, parecem mais um ‘jogo retórico de palavras’ que em pouco ou nada coincidem com o verdadeiro valor e sentido de uma comunidade política. A política, no seu sentido originário, fundamenta-se e torna-se real no bem comum de uma comunidade (polis). Todas as vezes que os interesses particulares se sobrepõem ao ideal maior de bem comum, a política deixa de ser o equalizador social. Tornando-se ferramenta de guerra entre oponentes que se pretendem, tão somente, manter-se no poder e servir-se dela para a manutenção de seus bens pessoais. É desafiador, porém necessário, avaliar com um olhar clínico todas as posturas, jogadas e estratégias de comunicação entre os candidatos ao governo da nação. Nem sempre aquele que chega como afago ao coração é realizador de um ideário verdadeiramente político. Assim, optar pelo possível resultado do antigo técnico é tragédia romântica. Por outro lado, aderir ao jogador do presente poderá acarretar insensatez e mesmice, pois a mitologia nos impede de perceber a realidade tal como ela é e para além das aparências…
Diante de tudo isso, é necessário avaliarmos criticamente o desenvolvimento e as contribuições perfeitamente humanas dos times que se colocam em campo. O torcedor, muitas vezes tido como objeto de manipulação, precisa acordar do sonambulismo radical, e ‘olhar para cima’, de onde nos vem o sinal das possíveis catástrofes que muitos não possibilitaram perceber…
Com isso, requer superar e viver para além do “crepúsculo dos ídolos”. Do nascer do sol até o seu ocaso, poderá ocorrer queimaduras e feridas em todo tecido social. O pior ainda é que não haverá juiz e nem médico algum para controlar a condição do corpo em destruição. É a partir das escolhas dos ídolos que se definirá qual religião seguir. Nem sempre o ídolo é “deus” que realiza milagres sem exigir algo em troca….
Tendo em vista as jogadas políticas, é factível de que “sem muitos princípios norteadores, [coloca-se] constantemente os termos do Contrato sob suspeita” (MOTA, 2018, p. 93). Assim, todo conjunto que se divide corre o risco de se autodestruir. Mais uma vez torna-se visível as “guerras de narrativas” sem, muitas vezes, fundamentos verdadeiros e lógicos.
Se alguém se pré-dispõem a representar um conjunto de sujeitos sociais-políticos, precisa ser consciente de que sua autoridade constitui-se não por si mesmo ou por suas forças intelectuais de manipulação, mas pelo consenso de uma comunidade individualizada, que não é massificada, que o faz porta voz de toda a consciência coletiva. O percurso e fim de tudo depende unicamente do sujeito político, dos cidadãos, de cuja autoridade política tem suas bases…
Um sistema de ‘jogo político’ que visa tão somente a comodidade não pode ser digno de denominar-se Política! Esta, seja razão de unidade e não de divisões.
Pintura: “Cícero denuncia Catilina” de Cesare Maccari (1888) – (afresco que representa o senado romano reunido na Cúria Hostília – Palazzo Madoma, Roma).

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