“E o risco que assumimos aqui é o do ato de falar com todas as implicações” (Gonzales).
O que nos implica a manifestação da nossa falação? O que podemos fazer para externar nossa pulsão de vida e comunicação? Onde e como aplicar o direito e o dever de manifestação das próprias opiniões?
Muitos falam, porém quem está certo? A Razão está com quem? Quem pode falar? – Falar e ser ouvido é a condição de todo vivente… Fala o homem e a mulher, o de gênero e o transgênero… Fala todo aquele que se pensa dono da verdade ou comandante da voz alheia, até mesmo representante dos que calaram-se ou foram silenciados pelos dominadores da comunicação.
O que falar se não da própria história, das dores, dos sofrimentos, das alegrias, das glórias e angustias. O conteúdo é si mesmo com toda sua carga e potencialidade de mudanças, com todos os seus impactos positivos ou negativos no meio…
Quem fala? O de voz, o sem voz; aquele que sabe ouvir e também esperar o momento certo para persuadir o interlocutor. Por nobreza, somos corpos falantes. Mesmo sem palavras preenchemos o mundo, os espaços com nossas expressões linguísticas. Pela palavra em tons diversos, pelos gritos de socorro e lamentações, por meio das músicas e até mesmo pelas danças. Expressa-se o que se pensa e o que se é…
Pensamos que em tudo podemos opinar e representar sem mesmo saber da profundidade dos assuntos. Qual o tema da sua fala? O futebol, a religião, a política, o sistema de segurança do país, o governo desgovernado, as guerras e corrupções, sobre os mitos e as fábulas, sobre a vida do outro, enfim… Somos em tudo comunicadores e magistrados dos assuntos que nos tocam a alma. Sedentos de verdade e de conversações…
Cientes de que tudo podemos, buscamos continuamente independência, sem autoritarismos. Liberdade pelo jornal ou pelas redes, tecemos um mundo de informações. O dilema torna-se, assim, real: livres e ao mesmo tempo prisioneiros dos nossos próprios ideais. Em todo caso, autonomia é nossa vez, nossa voz…
Talvez não seja a questão o “lugar de fala”, mas o espaço por onde poderá ecoar a opinião fundamentada na razão prática da existência e da condição da vida, do absolutamente diferente. Se é totalmente outro quando começamos, ao final de tudo, já não sabemos quem somos, pois falar nos transforma de dentro para fora. Dos profundos abismos do nosso ser ao caos social.
Fala é a voz da resistência contra toda forma de opressão! Falem os tambores, as marchas, os famintos, os opulentos; falem os machistas e feministas, tradicionalistas e liberais, intelectuais e ignorantes; falem todas as raças, línguas e nações. Se mostrem na nudez que são: uma pátria amada e idolatrada, constituída de um povo heroico com suas lutas diárias…
Fala a mais profunda Esperança!
Pintura: “O Grito” de Edvard Munch (1893).

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