Vivemos numa sociedade marcada pela expressão religiosa, do Sagrado e das diversas manifestações das religiosidades populares, míticas e místicas. O pensador Mircea Eliade já concebia o ser humano como sujeito essencialmente religioso. Ele está sempre em busca de transcendência e da transcendência. Ele não se contenta com apenas ser criatural ou material, busca constantemente a via espiritual e sobrenatural da existência. E tudo isso se apresenta no seu modo de agir e de se relacionar com o mudo e com as pessoas.
Um dos riscos, nesse emaranhado religioso, é a ilusão ou a alienação da fé e da razão. Isso pelo fato de não manter-se firme, numa consciência clara e distinta, diante das atrocidades verbais e morais que muitas pessoas podem se deparar. A busca incansável ou insaciável, sem prévia reflexão crítica, pode levar a uma situação degradante. Fazendo com que viva uma religião da alienação ou tornando-se robotizado mediante instruções de determinados sistemas e modos operandi de indivíduos aproveitadores. Aqui também pode está a conjugação entre o abusador espiritual e sua possível vítima. O abusador dominador será tanto mais eloquente em suas investidas, tanto mais a vítima se deixar seduzir por ele. Segundo Gabriel Perissé, o abusador de cima é alimentado pelo fanatismo da vítima (debaixo), pois a doentia situação desta favorece a doentia situação daquele. Com isso, somos levados a examinar “nosso próprio papel na sustentação de um ciclo de violência”(Burgis, 2025, p. 178)!
Em tempos de necessidades e de muitas ofertas, exige-se maior criatividade e clareza do que, de fato, vale a pena aderir e se propor a seguir. O crivo racional, que não é mero racionalismo, ajuda a atentar-se para o essencial da fé e da busca pelo eterno.
Uma coisa é certa, “todos nós estamos sujeitos a agir como manipuladores ou a ser manipulados” (Perissé, 2024, p. 195). E a busca pelo equilíbrio é fundamental! Conhecendo as próprias limitações e deficiências emocionais e afetivas, e procurando cuidar-se na área da medicina dos afetos, da fé e da razão.
“Sapere Aude” – ousar a aprender sobre si e sobre os mecanismos e sistemas que nos envolvem, é uma maneira positiva para atentar-se ao nível geográfico, existencial e religioso que nos encontramos. Assim acrescemos: “credere aude” e “discernere aude”, ou seja, ousamos crer e discernir à luz da Sabedoria tudo o que nos envolve…
VRP;

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