Na espiritualidade de comunhão fundamenta-se nossa relação com Deus, sumo bem, e com os irmãos. Isso é evidente na experiência da Eucaristia. E dentro da Liturgia, no seu todo, percebemos essa relação com Deus Pai, o Filho, na ação do Espírito Santo. E nós, seres humanos, somos inseridos nessa dinâmica dialogal. Certamente a Liturgia é uma grande oração em que, nas suas particularidades, possuem diversas outras orações que nos ajudam a entrar na dinâmica da comunhão e no diálogo com o sobrenatural, ambientados numa assembleia celebrante.
Para dialogar requer a realização da cultura do encontro (Papa Francisco). O encontro que gera vida e perspectivas de transformação do eu e do outro. Dialogar exige dos envolvidos a capacidade de abertura, acolhida e aceitação, não só de si, mas também do outro, com suas particularidades. Quem não dialoga está fechado ao diferente, é intolerante, é violento e gera guerras e conflitos. O diálogo, provindo da vida de oração, gera paz, harmonia, fraternidade e compreensão. Nesse sentido, apresentamos os “3 S” da espiritualidade oracional.
O Primeiro “S” é o da “Solidão“. Essa expressão nos leva a experiência do estar sozinho. Mas ao mesmo tempo acompanhado de si mesmo e de Deus. É a solidão positiva. Segundo Thomas Merton (2008), na solidão nos deparamos com a verdade nua e crua de nós mesmos. Sem ela, não se é possível crescer no saber de si. E o medo de entrar em si mesmo, leva as pessoas a fugirem cada vez mais dessa experiência. A solidão é necessária, pois Elias na solidão do Monte Oreb faz o encontro com Deus na Brisa suave (1Rs 19); Jesus na solidão do deserto foi tentado pelo Diabo (Lc 4); Jesus na solidão da Cruz disse: “Pai, porque me abandonaste?” (Mt 27,46). Na solidão lidamos com o afastamento, com o abandono, com o sofrimento e com o reconhecimento de nossas fraquezas, do nosso verdadeiro eu. De tal modo que, na solidão da oração, encontramos Deus!
O Segundo “S” é do “Silêncio“. Negar o silêncio é negar a essência de Deus, dizia o cardeal Robert Sarah (2017). Ele ainda diz que ” no céu não existem palavras, Deus não faz ruídos”. Dessa maneira, o salmo 62 nos afirma que: “a minha alma está silenciosa somente diante de Deus, dele me vem a salvação”. E se aprende na oração o tempo certo para falar e para se calar, conforme Eclesiastes 3,7. No silêncio da solidão, Jesus reza ao Pai no Monte das Oliveiras para que lhe afastasse o Cálice, porém que pudesse ser feita a Tua vontade (cf. Lc 22). Assim percebemos que, diante do nascimento temos o grito ou o choro da vida que surge; sendo que diante da morte só existe o silêncio. Na morte impera o silêncio do eu com o tu, que é Deus. No silêncio em Família, à mesa, desfruta-se da presença dos outros e melhor se aprecia os alimentos… Assim, “O silêncio da oração é um silêncio eucarístico, um silêncio de adoração, um silêncio de Deus” (Sarah, 2017). A Liturgia da Eucaristia e a Liturgia da vida nos pedem um pouco mais de silêncio, numa sociedade da tagarelice, do barulho ensurdecedor…
Por fim, o Terceiro “S” é o da “Santidade“. Isso porque a oração nos santifica. E na oração encontramos caminhos para uma vida sempre mais santa. Sem nos esquecer de que a santidade não nos faz menos humanos, pois ela é exatamente o encontro da nossa fraqueza com a força da Graça de Deus (Papa Francisco). Na busca constante da santidade, tenhamos em nossa vida diária pessoas que sejam modelo, tanto as que convivem conosco, como os santos já declarados pela Igreja. A via da Santidade é acessível e possível a todos. Cada um a segue conforme sua própria condição de vida.
Pereira, VR.

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