(Pintura: “Reza Matinal” de Jean Baptiste Greuze)
A partir do título em questão, nos deparamos com duas realidades: a dimensão espiritual, que tem por base os princípios cristãos. Princípios estes que têm sua origem na Pessoa de Jesus Cristo e nas experiências transmitidas por outras pessoas que se entregaram na vivencia do mistério da redenção. Segundo Antonio Marín, em sua obra “Grandes Mestres da Vida Espiritual”, destaca que a “espiritualidade cristã se apóia de forma integral e essencial na doutrina de Jesus, completada com a de seus Apóstolos imediatos. Não há e nem pode existir outra espiritualidade legítima e autenticamente cristã” (2019, p. 15).
Mais uma vez, o que seria espiritualidade cristã? No conjunto dos estudos teológicos, temos a Teologia Espiritual. Esta pretendendo-se ajudar na compreensão e vivencia da fé cristã a partir das reflexões dos Santos e dos “Padres da Igreja” com seus métodos e meios espirituais. Certamente sem desconsiderar aquilo que podemos chamar de “espiritualidade encarnada”, ou seja, o espiritual que não desconsidera a realidade propriamente humana. Desse modo, na prática da própria espiritualidade, fundamentada em Jesus Cristo e na tradição da Igreja, visa-se aprofundar na experiência da santidade. Ou seja, no desejo de participar da vida divina e de tornar-se um com Deus.
Em sua essencialidade, sem deixar-se levar por intimismos e espiritualismos exotéricos, requer sempre a formação da consciência – de uma consciência espiritual. Com isso, estamos nos referindo “aquela maneira específica de assumir pessoalmente o dom divino da vida cristã, ou seja, de realizar pessoalmente o conteúdo da fé” (BERNARD, 2014, p. 38-39). Para que isso se efetive, vale trabalhar em nós as dimensões da afetividade e do tempo. Este último tem ligação com a duração da própria espiritualidade, que converge, num mesmo momento, ao amadurecimento dos afetos. Além disso, levando ao progresso da generosidade e da determinação…
É fundamental entendermos que a espiritualidade cristã tem por horizontes as seguintes fontes: Sagrada Escritura, a história da espiritualidade, a experiência pessoal de cada sujeito, bem como o conhecimento de cada pessoa (antropologia). Assim, é diálogo com Deus, saber de si – pecados-limites, virtudes e etc.; conhecimento do mundo e suas influências na pessoalidade de cada um. Assim, ao mesmo tempo que há um crescimento em direção à Deus Trindade, há também um crescimento na condição humana (moral – afetiva). Reforçamos que: “a vida espiritual é sempre vida de um homem concreto com sua história, suas capacidades, seus limites […]” (BERNARD, 2014, p. 15).
Apesar da brevidade do tempo, queremos deixar em evidência que não existe uma forma única e universal de espiritualidade, pois dizemos que há diversos tipos de espiritualidades que convergem a um ponto comum, que é a salvação de todos. São caminhos diversos que levam a uma finalidade primordial: comunhão com Deus e unidade do Corpo Místico (Igreja) (cf. CIgC, par. 2684). Mas quais são as modalidades de espiritualidades? Podemos elencar algumas: inaciana, beneditina, carmelita, franciscana, agostiniana; carismática, contemplativos, mariana, Sagrado Coração de Jesus, Mãos ensanguentas de Jesus, Mães que oram pelo filhos , terço dos homens, vicentinos e dentre outras.
E o que favorece a espiritualidade cristã? Apresentaremos, nesse sentido, alguns elementos primários e fundamentais para a conservação e crescimento da vida espiritual, em cinco vias:
1-Eucaristia: em que se celebra o mistério da redenção do gênero humano. Por meio dela vivemos o calvário e a glorificação de Jesus, e antecipamos a vida definitiva no tempo presente. “A comunhão da Carne de Cristo ressuscitado, ‘vivificado pelo Espírito Santo e vivificante’, conserva, aumenta e renova a vida da graça recebida no Batismo” (CIgC, par. 1393). A Eucaristia é a fonte e o ponto mais alto da experiência cristã (SC., nº 10 ).
2-Confissão: na condição de sujeitos pecadores, nos é possibilitado o retorno à presença de Deus. Isso sendo acessível pelo sacramento da confissão. E é confessando os pecados que confessamos Deus como nosso único Senhor e Mestre (Giraudo). É reconciliando-se com Deus, com os irmãos e com a Igreja, que vislumbramos o Amor de Deus em nós. Para se confessar frutuosamente requer: exame de consciência (contrição), confissão integral dos pecados (leves e graves), apresentar-se ao sacerdote (confissão individual), dispor-se a realizar a penitência (satisfação) e possuir o firme propósito de conversão. “O perdão está na oferta de liberdade que é doada de modo favorável, afetuoso, por parte de Deus” (RAVASI, 2021, p. 16).
3-Leituras Espirituais: em que terá como modelo a vida dos Santos, especialmente a vida de Jesus Cristo – por meio da Leitura e meditação bíblica, modelo supremo de toda criatura. Acima de tudo é “caminhar sobre as pegadas de Jesus” (Marín). Importante a leitura da vida dos santos que viveram a vida casta e foram celibatários, bem como a dos santos casados…
4-Direção Espiritual: é um meio pelo qual cada pessoa busca redirecionar a sua vida. Na direção espiritual, o dirigido apresenta-se ao orientador (sacerdote, religioso ou outra pessoa capaz) suas aflições humanas e espirituais, pontos de crescimentos e dificuldades, para que seja ajudado a permanecer no caminho da virtude e elevação espiritual ou superar os problemas. Para bom proveito da direção espiritual, requer que o dirigido estabeleça, junto ao seu orientador espiritual: a frequência, as metas, um diretor específico que lhe acompanhe, se não o tem, e que tenha abertura para com o mesmo. É fundamental distinguir Direção Espiritual de Confissão sacramental, que devem ser vivenciadas em momentos distintos também. Embora, em ambos os casos, haverem a manifestação da consciência (cf. MERTON, 2022, p.35-47).
5-Orações Pessoais: é o consolo da alma. Como se reza com o salmista: que nossa oração suba como incenso à Deus (Sl 141, 2). As orações podem ser as tradicionais, como por exemplo o terço, como também as espontâneas. O importante é a sinceridade das mesmas. Sejam feitas em comunidade ou pessoalmente, de natureza perseverante e com confiança. Segundo um Anônimo do século XIV, “a oração nada mais é em si mesma do que uma intenção devota que se dirige para Deus, com o fim de alcançar o bem e afastar o mal” (“A Nuvem do Não-Saber”, 2013, p. 114). Além disso, Bento XVI reforça sobre o valor da oração dizendo que “a oração não é somente o alento da alma, mas […] é também o oásis de paz do qual podemos tirar a água que alimenta a nossa vida espiritual e transforma a nossa existência” (2018, p. 67). Por fim, se escolha um ambiente adequado e favorável a vida de oração, seja ela silenciosa-contemplativa ou não… A seu modo, “o santo é uma pessoa com espírito orante, que tem necessidade de se comunicar com Deus” (GAUDETE ET EXSULTATE, nº147).
Para concluir nossa reflexão, deixamos uma oração da terça-feira da V semana do Tempo Pascal. Chamamos a atenção do leitor para as premissas: a) Somos renovados para a eternidade a partir da ressureição de Cristo; b) A constância na fé e na esperança é obra de Deus em nós; c) E a constância de fé e esperança terá como resultado o não colocar em dúvida as promessas do Senhor, em que temos por base a confiança na ação divina.
Oração:
“Ó Deus, que, pela ressurreição de Cristo, nos renovais para a vida eterna, dai ao vosso povo constância na fé e na esperança, para que jamais duvide das vossas promessas. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo“
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