A expressão forte que nos estimula neste tempo é o Perdão. “Perdoai, e sereis Perdoados” são palavras exortativas de Jesus Cristo, quanto a capacidade de perdoar e sermos generosos uns para com os outros (cf. Lc 6, 37). Elas estão no conjunto elucidativo em que somos chamados a não julgar e nem a condenar, pois se o fizermos também teremos a triste sorte de sermos julgados e condenados. Preferindo como opção fundamental a medida do amor!
Por sua vez, vale realçar a compreensão do perdão que só pode ser vivido por pessoas que profundamente sabem amar. Esta condição de amor, gerando a reciprocidade, faz com que todos sejam capazes de olhar o próximo com misericórdia – “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6, 36) . Diante das nossas misérias nos deparamos com a benevolência de Deus…
Tendo em vista as palavras do Papa Francisco, sobre uma necessária ‘cultura do encontro’, nos apercebemos ainda com a declaração do cardeal Walter Kasper, sobre uma urgente ‘cultura da misericórdia’. Mas só poderemos avançar nesta última se nos deixarmos interpelar pela primeira. Ou seja, só pode haver cultura da misericórdia quando superarmos a dimensão do distanciamento, aproximando-nos, não só os corpos, mas os corações sensíveis. E na sensibilidade do Espírito, nos deixarmos moldar pelas relações profundamente humanas.
Desse modo, a experiência litúrgica, contida no Ato Penitencial, por exemplo, nos leva a compreensão de que toda forma de perdão se fundamenta na relação do sujeito pecador ou ofendido com o seu oposto. Assim, o pecador tende sempre em plenitude viver na relação com os santos e com o mais próximo de si. Com as palavras do rito litúrgico, vimos a necessária invocação dos santos, dirigindo-se aos irmãos, suplicando sua intercessão, tendo como elemento inicial o “Confesso a Deus todo poderoso”. Em seguida, vai-se dilatando esta realidade para com os irmãos: “E a vós irmãos e irmãs”. Esta conquista não se constitui só pela força humana, mas requer o poder de intercessão dos santos e do próprio Deus uno e trino. Assim, a formula de absolvição sacramental (sacramento da confissão) tem como principio a Trindade: fala de Deus Pai, do Cristo que redimiu o mundo, do Espírito Santo que foi enviado para remissão dos pecados, bem como da Igreja, que por sua vez, é canal de perdão e paz. Tudo isso para nos referirmos a condição de comunhão…
Além disso, o sacramento da confissão faz considerar não apenas os pecados cometidos contra Deus, mesmo que partindo do decálogo ou dos mandamentos da Igreja, enfim. Mas leva em consideração os pecados ou ofensas cometidas contra o seu (meu) próximo. Não só reconciliar-se com o irmão que se ofendeu, mas que sejamos audazes na reconciliação com os que nos distanciaram de si mesmos. Por isso que Cristo enfatiza: “Se, portanto, ao levares a tua oferenda ao altar, te lembrares de que teu irmão tem algo contra ti, deixa a tua oferenda lá diante do altar, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão e, então, volta para apresentar a tua oferenda” (Mt 5, 23-24). A partir disso, entende-se que a vida ritual-sacramental está profundamente ligada com as disposições do coração e da vida em comunidade. A comunhão com Deus, nesse sentido, está implicada também na vida comunitária. Enfatiza João: “Se alguém disser: ‘amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é mentiroso” (1Jo 4, 20). A capacidade de amar ao Deus, de amor absoluto, então na sua intimidade, enquanto compromisso moral e espiritual-religioso, se deve amar o outro, que é diferente de nós.
Assim como o pecado pode estar caracterizado por pensamentos, palavras, atos e até mesmo atitudes de omissões, o ato de perdoar funda-se nos horizontes de dispor-se de si mesmo, num processo de saída, em direção ao ofendido. Este ato provoca ambas as partes a auto-reflexão e tomada de consciência e no assumir uma nova postura, enquanto família humana e cristã, de abertura ao que busca perdão e que se abre a reconciliação num ato de misericórdia e humildade.
Quantas vezes se deve perdoar? O perdão não tem limites (Mt 18, 21). Basta desejar e colocar-se a perdoar e ser perdoado. Quem não faz a experiência do perdão não possui garantias de um amor autêntico, pois o verdadeiro amor tudo perdoa, atesta são Paulo (1Cor 13, 7). Pois Deus tanto amou, e continua a nos amar, que entregou seu Filho única para a salvação dos homens (cf. Jo 3, 16; 1Jo 4, 9-10). Logo entendemos que o perdão passa pelo crivo do amor que sempre redime. Perdoar é um ato divinamente redentor!
O perdão sempre tende a nos redirecionar ao dinamismo da ressurreição, pois é redentor. Além disso, faz despertar em nós uma nova vida após superarmos os sinais de morte que marcavam a vida interior, a pureza e a paz da consciência, que é sacrário inviolável do ser humano (são João Paulo II). No perdão se encontra o alívio e a leveza do divino em nós. O Pai Nosso, assim, é primordial oração pois nos esclarece: “perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos ofendeu”. Porém isto só pode ser concretizado por quem tem um coração sensível. “O grande obstáculo a uma vida de Deus não é a fragilidade e a fraqueza, mas a dureza e a rigidez” em que nos deparamos (MENDONÇA, 2013, p.119).
Diante de tudo isso, fica forte o realismo de que precisamos suplicar a Deus um coração puro e um espírito sempre resoluto (cf. Sl 50, 12). Deixando mais claro, precisamos elevar aos céus: ‘Dai-me Senhor uma consciência pura e uma inteligência decidida’. Tendo em conta a firme esperança de que Deus não deseja a morte do pecador, mas que mude de conduta e viva para sempre (Ez 33, 11).
Pintura: “O retorno do filho pródigo” de Bartolomé Esteban Murillo (1667).
(V.rP.)

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